"A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais..." - Sofia de Mello Breyner Andresen,
quarta-feira, setembro 12, 2007
Um espelho qualquer
Ela deseja ser desejada. Impulsivamente, levanta-se e dirige-se à toilette. Possivelmente, para retocar a maquilhagem. De soslaio, encara-o como se o convidasse a acompanhá-la. Tentador. Não? Ele nem tenta disfarçar e segue-a. Só me lembro de olhar para o relógio e ter passado meia hora. Continuavam esgueirados, sem dar notícias.
Fez-me pensar em escapar à rotina. Algo de desavindo se passava ali. Especularia que: São lugares de rompante que passam a correr na nossa vida. Toca e foge: "Em geral, os cenários pouca importância, têm". Calham, e às vezes não calham mal. Tinha de ser ali: "Num café banal, onde tudo pode acontecer...” Fortuitamente, um casal estranho sente atracção. Nenhum deles faz ideia de quem é. É irrelevante. Interessa só que os sentidos estejam apurados. Não importa quem repara. A luxúria, que ambos querem partilhar, sobeja.
segunda-feira, setembro 10, 2007
sangue
Gotejar

quarta-feira, agosto 29, 2007
Verdade ou Realidade
É como a inspiração. Tenho tantas ideias, tantos pensamentos que me estão, constantemente, a atabalhoar a mente, que não os consigo pôr no papel.
E isso porquê? já o sei. è a fonte que tem vindo a secar...a mirrar. Não que sinta medo de os pôr cá para fora, simplesmente nao saem. Como fragmentos sem ligação, sem uniao, sem sentido, sem nexo. E são pensamentos lindos, quase como se eu quisesse que o Mundo soubesse. Do que sou capaz. E que afinal, não sou incapaz. E que tenho para dar, através de historias que imagino. que se passam comigo, ou nao. Sou eu.
terça-feira, agosto 07, 2007
De volta
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Regras que degolam...
A sociedade convida a uma série de atrocidades, ora cometemos connosco ou com o do lado.
A sucessiva engrenagem torna-se repetitiva e emite, constantemente, códigos pensantes e alternativos que erradicam na rotina e no bem-estar, e o que é mais selvagem, é que estamos dispostos a obedecer. Apodrecer. Obedecer. Assentir.
Felizmente, não acontece logo nem sempre, e talvez precisemos de nos dar uma oportunidade e deixar que as coisas evoluam por si. A complexidade do ser humano vai até aqui, quando respeitamos os outros, imiscuirmo-nos a nós proprios. Pois é , mas sempre nos ensinaram a não ser rudes, a não ser indiscretos, nem inconvenientes, em suma, mal formados. As ocasiões mais certas e imediatas não se escusam por nada. Elas decorrem, estão aí e têm vida própria. Alterações e situações de pressão fora do comum, e outros simbolos que aprendemos a respeitar. Como aprender a conduzir. Sabe-se que há sinais de proibição e de permissão aos quais devemos cumprir.
Nesse caso, o que fazer , quando nos magoam?
Engolimos o desaforo, e lidamos com isso, até nos passar.
Partimos para agressão, que é a solução mais comum e que nos desembaraça da culpa que sentimos, por não termos agido naquele momento. É terrível e comprime-nos até que, conseguimos viver com isso e aceitarmos que faz parte de nós. Quem somos, afinal?!
A contestação é essencial, e defendermos os nossos ideais, as nossas opiniões, e se não reagirmos a este tipo de situações repetir-se-á sempre até que os males entendidos, fiquem esclarecidos.
O outro compreenderá e respeitará, deixando assim de pensar que aquele tipo de pessoa pertence aquele padrão. O padrão, em uso, deixará de existir dando lugar a um outro muito diferente.
terça-feira, janeiro 30, 2007
o amor perde-se com o tempo
O tempo desgasta , a ausência apodrece a hilaridadePeço que o riso não me abandone quando me apetecer chorar
Não quero perder aquela vontade d´ amar
Se a perco, jamais e incapaz de amar…
Darei o quê, se a frustração e o abalo vencem,
A Inutilidade pode vencer, serei senão eu própria…
Tantos desenganos, ora a vida nos proporciona
E não conseguimos ver que uma das armas mais poderosas, vai tecendo e traçando fios e fios de horas, algumas mais desinteressantes à espera de, acordarmos um dia, até que padeçamos e vejamos o que desaproveitámos.
Oh vida.
O quão importante é, não nos vergarmos à tua impaciência.
Por tão desajustada e oca que sejas, às vezes, seria bom que te contemplássemos, como um puzzle com tantas e diferentes peças e no fim de cada dia, tivéssemos a capacidade de parar e encaixar mais uma que, ontem ou na semana passada, nos parecia tão inacabada.
Como aprendemos?
Não sabemos, vamos sabendo … à medida do nosso tempo
à dimensão do desgaste. E aperfeiçoarmos esse desgaste.
Podemos combatê-lo… mas para quê?
O desgaste gera desgaste… e o cansaço vence.
Quantas vezes já me perguntei…porquê gastar energias em algo que não tem assim tanta importância. A lucidez da alma acompanha este processo. Se não conseguirmos abstrairmo-nos disso, o que julgamos não ser importante, é-o de facto. É outro puzzle que vamos deixando de lado, até que se amontoem muitos puzzles na nossa vida.
Esta perspectiva “puzzlianesca” tem alguma lógica, para mim, no sentido em que posso pegar neste facto concreto, para entender a minha vida e como ela tem decorrido aos meus olhos ao tempo e desgaste que me tem proporcionado.
Quem dera que me fosse mais fácil aguentar e ultrapassar o poder que, por vezes, ela tem.
terça-feira, outubro 10, 2006
Saudades de inventar
Ou será o tempo que me faz isto.
Nostalgias. Amores impraticáveis.
Amizades indefiníveis. Desencontros.
Estórias a contar ou a inventar. Tenho saudades.
Mal-entendidos, receios, algumas palavras, e emoções.
Afazeres excessivos, desavindos que me têm desviado daqui.
Projectos envolventes e, quão vacilantes.
Não há tempo, nunca há tempo, ele, sempre, nos foge.
À ausência de nós próprios, o tempo traz.
Tanto se passou. Gente nova, gente velha, os que escaparam, os que se mantêm.
É o universo, o caro ri-se em constante transformação. Reformas e retomas. De mão em mão, as opiniões e os jeitos abundam. Harmonias e segredos revelam-se - entre multidões e gentes.
A rua estava silenciosa. Quase dez horas da noite. Não havia, praticamente, barulho. Só o do comboio. De vinte em vinte minutos, ouvia-se o “pouca terra, pouca terra”. De quando em vez, passava um carro, ou alguém que usufruía de bicicleta, o que seria uma das últimas belas noites de Verão. Pois, era o fim do Verão que se aproximava. Noites como esta, restariam poucas.
Assomei à janela. Um calor infernal. Um céu limpo. Estava lua cheia. De um brilho inexplicável. Nem as infelizes ou poucas árvores buliam, acostumadas à poluição. Um cão corria do dono. Este, coitado, bradava para que ele não fugisse. A trela tinha-se-lhe escapado. Alguns rapazes brincavam às escondidas, outros riam, talvez partilhassem anedotas.
Via-se alguns dependentes ou habitues da TV. Provavelmente, algum filme, novela ou série que acompanhavam há meses.
O que se passa por detrás daquelas janelas, algumas escancaradas, outras com luz meia baça. Tudo ou quase tudo. Da criatividade não abdico. Se me pedissem não a trocaria por nada.
A Joana sentia-se cansada e chorosa, acumulava noites longas sem dormir, o homem com quem partilhava a casa, traí-a. Discussão à vista ou um desamor despoletado por simplicidades, os casais que não borrifam a relação, é o que calha.
No piso de baixo, observo uns rapazes. Fixam um computador, provavelmente, navegavam nalgum chat, ou site mais ousado. No terceiro direito, invejo uma rapariga que se pinta e emboneca para o homem dos seus sonhos. – “Pode ser o tal!” (lembram-se de “Janela indiscreta”, de Alfred Hitchcock)
Ele espera na outra sala, e mostra-se tão nervoso. As mãos suam-lhe, ansiosamente, e desorienta-se ao bisbilhotar uma moldura que caí no chão. Apanha-a e senta-se finalmente no sofá, massajando os dedos e arregaçando as mangas. Desperta um pouco a gravata e não pára de ver as horas. Não é que estejam atrasados. Vão sair pela primeira vez, só isso. Têm um jantar romântico. Invejo-a, sim. Jantares românticos são projectos que não fazem parte da minha agenda há uns anos.
Hoje em dia, já não me culpabilizo de não amar ou de não ser amada, e que haja alguém que me queira seduzir. Estou bem, mas deixei de acreditar no Amor. É um assunto que, já, me deixa dormir. Me deixa não esquecer as potencialidades e capacidades de praticar outros projectos que sei ser capaz.
Enquanto isto, deambulava pelos meandros da mente. Pensava na vida - no que tinha feito, no que poderia ter feito, porquanto seria digno o que fiz, por que lutei, pelo que aprendi, pelo que dei? Conclui que a vida que não escolhi teria sido mais rica, mais completa e, mais cheia pelo que poderia ser hoje e não sou. Será certa essa incerteza? E o que sou hoje? Não sei bem contar. Pensei indagar alguém que me conhecesse, e não sei o que expressaria! Sei inventar e contar Estórias. De os outros para os outros. Isso, gosto e sei fazer. Autobiografia seria breve, muito aquém do que sempre imagino ou imaginei para mim. J não se farta de me dizer que eu posso e devo ser, posso e devo querer, posso e devo fazer….
Amanhã, volto cá.
Até já!
terça-feira, setembro 05, 2006
terça-feira, agosto 22, 2006
A hostilidade do cimento – II
Esperas. Emboscadas exasperantes. A percepção das coisas tende em escapar-nos. Os segredos enchem metrópoles inteiras, empedernidas, pela tradição que faz por nos lembrar regências familiares, impedimentos conscientes e superiores. Matérias e afins, temas e, disciplinas regulares. Os chamados Encontrões. Rumos. Metas e exemplos quase certos. É favor não assentar opções. Vive-se na corda bamba.
E as mentiras, as rejeições, as rotinas, as feições, as decisões amortecidas pelos movimentos mecânicos e rotineiros. Atalhos e percursos sinuosos, só nos desviam do que é essencial e, ao desfecho? Determina-se a inconstância que sempre sentíramos. È a inconstância do betume, a incongruência da realidade.
Sabemos que pode ser …algo que nos encalha, ou alguém que nos fere, ou que nos é amargo, ou que se cansa, ou alguém que apregoa. “…Caminhar em frente dói”, e que nos, deixa lá mais uma “ruga”, um laivo de fraqueza …É a vida ávida … Afinal é para este Todo, ao qual, vindos e concomitantes, nos vão sendo colocadas provas, motivos, e testes, alguns, inúteis. Será preciso tanta mágoa…! Hipocrisias escondidas e negociações. Envelheceres gastos e pesares hostis e putrefactos. Sangramos, não faz mal, faz-nos mais fortes! Esta é a nossa lei tão acostumada, é a própria vida. É a astúcia da própria. Desagrados acumulados de anos. Repressões vinculativas. Geração para geração. Pais e filhos. Pais para filhos. Certos ou errados. Nunca o soubemos!
quinta-feira, agosto 17, 2006
A hostilidade do cimento
O Homem possui, reina, determina, e destrói disposições maciças, elevações poéticas prostradas em restos, em pedaços de boatos, e abalos e ruínas tristes num sistema que, pervertido, actua por contentarmos os ditos ditosos.
Costumes arruinados, vícios únicos e indivisíveis, soltam-se em ameaças extraordinárias e mais prementes. Vive-se e sobrevive-se entre vínculos déspotas e isolados que desencadeiam tropeções cíclicos, só e enfadonha, sabemos que atropelarmo-nos sem dó nem piedade, é a melhor feição.
Há um ciclo adaptador que emite personagens desconhecidas e emergentes à nossa evolução. A cada pedaço que damos, a cada reacção ao perto, a cada imagem que criamos ou retemos. A resistência ao que é sadio. A firmeza permissível ao que nos faz feliz. É mecanicamente aceitável.
A progressividade e a tolerância à realização. É de praxe o Homem calar, nunca reclamar, e jamais altercar. Fiquemos à mercê da institucionalização do cimento. Ele entra-nos por todo o lado, sob a forma de instantes e influxos que, até, nos fazem falta.
Viemos ao mundo com defeito, será? Perdem-se em nós, ou será que nos perdemos neles? Or ever. Está instaurado.
Não nos cansamos de dizer a nós próprios que sempre assim foi (a auto-justificação transforma-se em auto-flagelação)! A favor da agressão, a favor do betume e dos espaços parcos em cimento mal enjorcados que ocupamos! E tudo isto é reflexo das nossas transformações. Um palco montado numa selva de cimento. Animais intoleráveis. Pressões mentais recatadas entre receptáculos de betume. Escolhas e intrigas minam alguém mais idóneo, mas isso não tem importância, desde que sobrevivamos às hostilidades do cimento.
quinta-feira, agosto 10, 2006
A FORÇA DAS COISAS
Não era do homem de cinqüenta anos que eu tinha saudade; não era daquele justo sem justiça, de arrogância desconfiada e rigorosamente mascarada, que rasgara meu coração ao consentir nos crimes da França; era o companheiro dos anos de esperança, cujo rosto despojado brincava e ria tão bem, o jovem escritor ambicioso, louco pela vida, por seus prazeres, por seus triunfos, pelo companheirismo, pela amizade, pelo amor e pela felicidade. A morte o ressuscitava; para ele, o tempo não mais existia, o ontem não tinha mais verdade que o anteontem; Camus, tal como eu o amara, surgia na noite, no mesmo instante reencontrado e dolorosamente perdido. Sempre que morre um homem, morre uma criança, um adolescente, um jovem: cada um chora aquele que lhe foi caro. Caía uma chuva fina e fria; na avenida Orléans, mendigos dormiam nas soleiras das portas, encolhidos e transidos de frio. Tudo me dilacerava: aquela miséria, aquela infelicidade, aquela cidade, o mundo, e a vida, e a morte.
sexta-feira, junho 09, 2006
Desfragmentos
As palavras não saem, os afagos reprimem-se e, transformo-me numa outra pessoa.
Não consigo ser, atrapalho-me e não verbalizo metade do que tinha para te dizer.
Parece-me sempre que um outro universo se apodera dos meus feitos e sinais futuros, para se encontrarem ao dispor de outro alguém…
Será a inocuidade a revelar realidades que perdem o significado e põem termo às mensagens mal esclarecidas. A ausência distinta ao invés da fluidez natural do que, supostamente se quer dizer e se sente.
A falta de aprendizagem faz-me tropeçar no coração e a agilidade do que sou, do que aprendi, do que me tornei, volve-se numa agradável farsa. É tudo uma manha pegada quando apregoou que, desta vez, será desigual. Seremos sempre equitativos. O conceito é o mesmo, é aquele com que sempre lidei. Pois se nunca conheci outro.
E a facilidade com que me relaciono e, nos decepciono, altera completamente o rumo a um passo descompassado e antecipa o fim da narrativa.
Narrativas vivenciadas, elas perseguem-me, dominam e conduzem a mais uma que se esgota. É um ciclo de existências gastas e plenas de razão. E é como um lapidar idêntico, e, embora constante se acaba por se estilhaçar! Quase como se eu tivesse que as desfragmentar! Ou me visse obrigada a!
Nunca terei saber suficiente para abdicar de cometer os mesmos enganos, ou parecidos!
As relações serão sempre um mistério. Nunca nos conseguimos superar na totalidade de quem gostamos. Haverá indulgência para quem se quer mostrar diferente, desta vez? Só desta vez?! No desfecho, pensarei inevitavelmente o mesmo!
Eloquência tens-me enganado ao longo dos anos. Expressividades sinceras e definitivas… Tens gerido e clarificado o meu destino. Não há absolutas verdades, mas o facto de morares ao meu lado, tem feito a vida igual a si mesma.
Terei aberto o ciclo demasiado como sempre o faço, para que tu rejas o nosso universo. Se nunca houve nada. A minha cabeça agido à maneira do que nunca quase o meu corpo acompanha…é como se andasse desfasada do universo que me rodeia.
O meu corpo lá e a minha cabeça aqui. Ao juntá-las cresceria, amadureceria e explicar-te-ia como mudei! Mas não queria dizer que mudei por ti, mas por mim!
sexta-feira, maio 26, 2006
Palhaço de chocolate

Era uma vez uma menina chamada Sara. Ela vivia com a sua avó desde que se lembra.
De olhos cor de amêndoa, sardenta e com umas longas tranças meio aneladas enfeitiçava quem se passeava pela rua. Na posse de um sorriso do tamanho do Sol, dizia olá a quem se metesse com ela.
Todos os dias, a caminho da escola e pela mão de sua avó, pedia-lhe que parassem, por uns segundos defronte de uma vitrina.
Uma vitrina enorme, toda ela feita de chocolate. Desde bolos a bombons, trufas, e alguns brinquedos. Um deslumbramento para qualquer criança. O que lhe despertava, ainda mais a atenção, era um palhaço imenso com um semblante sorridente, um olhar farto de ternura. Parecia falar com ela.
E a face inundava-se-lhe de alegria. Um palco de satisfação para ambas.
Sendo, uma família de poucas posses, a avó nem sempre lhe comprava o que ela queria. No entanto, Sara desde muito bebé que aprendera isso, mas bastava a avó olhar para os seus olhinhos vivaços, para perceber o que queriam dizer.
Para Sara, o mais importante era poder admirar aquela montra e, se fazia toda a diferença por breves minutos, contemplar aquele palhaço.
Um dia, a avó, deixa a neta na escola e entra na confeitaria. Pede para falar com alguém responsável. Ficara com medo de que o palhaço desaparecesse dali. E, após as explicações ao dono da dita doçaria, pede para que não venda aquele palhaço.
O senhor Ernesto da chocolataria concordou. Nunca a Sara soubera que a avó tinha ido falar com ele. Um dia, o senhor Ernesto atento à chegada de Sara e sua avó, chamou-as. Ela entra contente e meia envergonhada e diz-lhe que o palhaço dela tem nome e, que costumavam falar um com o outro. Enternecido com aquele monólogo, dá-lhe um chocolate pequenino em forma de palhaço, igual ao palhaço da montra.
Todas as manhãs, o senhor Ernesto estava à coca de Sara para lhe oferecer o palhacinho de chocolate, que lhe fazia companhia até à escola.
Reinventar
O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo.
Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida.
E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.
Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Mia Couto
quarta-feira, maio 17, 2006
A possibilidade de me tornar igual a todos os outros, não apenas nos meus comportamentos, mas também na minha estrutura interna tornar-me-ia incapaz de sentir coisas reais...
segunda-feira, maio 15, 2006
Hoje
Assistir ao nascimento de um ou outro girassol,
À chegada do vento ameno e doce,
Sentir as trovoadas de verão, a tocar-me a face
E dizerem-me que os seixos que moram
em mãos que ferem ... a chuva há-de levar.
Quero ser insecto e … vaguear livre e solto
Pelas ramagens enlameadas que a terra tratou de atulhar.
Quero ser flor para te poder tocar,
se me cheirares.
Quero ser rio, banhares-te em mim,
Sem que o acaso anuncie que eu cheguei.
Quero ser fruto, deleitar-me em tua boca,
Afeiçoado em sabores por descobrir,
Odores a reconhecer, extemporâneos e incontamináveis
Que se concretizarão.
Isto e aquilo,
Pudera eu buscar nestes longos devaneios
A tua essência, a tua alma, a tua sabedoria e,
Transformá-la em meros enleios mirabolantes…
Ah, pudera eu enlevar-me ao saber-te que me conheces!
quinta-feira, maio 04, 2006
O Livro dos Amantes
e ficamos nas paredes do vento a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
Natália Correia
É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
Alberto Caeiro
terça-feira, maio 02, 2006
Desencontros
As palavras mais simples escapuliam. Contrastes, opções, desencontros e impressões abandonavam a fantasia para o papel. Uma autêntica carraspana de verbos e adjectivos enchia a folha de papel meio esfarrapada.
Despejaste o pacote de açúcar no cinzeiro sem querer, mas ainda assim cedeste a uma gargalhada. – e logo percebi que alguma coisa te inquietava. Sendo importante não me parece que consigas permitir esse ou nenhum outro momento de delícia a quem te observa.
Naquele feriado chovia a cântaros. Tinhas trabalho por terminar, mesmo assim, saíste de casa. Precisavas de espairecer. De pensar em tudo e, em nada.
Apetecia-te, meditar buscando por fundo, o burburinho do café. Do que vi, o que mais gostei foi, de teu cabelo. Era bestialmente liso e luminoso e assumia em baixo, na nuca, algumas afluências díspares de um acinzado ténue.
Teu impermeável pendurado no bengaleiro, pingava. Sorrias se davas uma passa. Sorrias se alguém entrava. Parecia um sorriso meio agitado. Nunca tinha visto ninguém saborear um cigarro como tu. Pelo menos, relacionar-se assim com eles. A maior parte dos fumadores já não sente o que fuma. Apesar de pensares, constantemente, em deixar de fumar.
Quando te certificaste, que as mãos estavam secas, tiraste um bloco da pasta que trazias e começaste a gatafunhar. Não percebi o que o teu semblante transportava para o registo. Pediste outro café, porque te apeteceu o pequeno chocolate que trazia.Pediste a conta e guardaste o bloco. Soltaste um esgar - por não teres a certeza que eu vá entender a tua letra.
Passaste por mim e voltaste a sorriste de uma forma mordaz. Como que pressentisses a minha curiosidade. A ansiedade que aquelas palavras que escreveras naquele bloco, me provocaram. Vestiste o impermeável e entraste na rua, onde continuava a chover.
Dali a instantes, fiquei lívida. Voltaste atrás. Pensei que me fosses dirigir a palavra. Deixaste a folha meio rasurada em cima da minha mesa e saíste porta fora. Falavas de mim. Um pensamento.
segunda-feira, abril 24, 2006
O Amor também se revolta
Afinal o que é o Amor?
O Amor proclama, reclama, persevera…
Ninguém sabe responder o que é…
Diz-se só que é o que se sente...
…o que nos falta.
É fogo que arde sem ver…já dizia o Poeta
O fogo arde, e até quando …
a camuflagem que usamos, não nos consome a estima oferecida…
Não será assim?
Precisamos de amontoar tantas emoções
De abrigar tantos sentires conformados e impermeabilizados
Em cadafalsos adversos à realidade!
De momentos de consternação que interiorizamos,
Para que nos impeçam de esclarecer,
O que já há muito é fadado.
Opiniões, métodos, idiossincrasias correctas…
À beira dos encantos, vestimos a pele de personagens feitos de artimanhas, de luxúria, de jogos de seduções, de demência, e somos alvo de situações cómico-decandentes.
Criamos chavões e atitudes arredadas,
Eliminamos o que nos percorre as entranhas mais entranhadas …
Não enaltecendo tal e qualquer tipo, a existência, ou então, de que nos serve
Tantos esgares, tantos pressentimentos e, tantas ditas comoções que não são ditas.
Para quê?
Fortuna é só aquilo o que vem no dicionário!
Fado é só um sinónimo, de tantos, que conhecemos?!
Temas eloquentes que ficam só para os entendidos!
Tanto infortúnio para findarmos da mesma forma…
Não será noutros momentos da nossa vida…como a doença ou a morte
Que nos lamentamos do que perdemos, do que interrompemos…
E afinal o que é interromper, o que nem chegou a começar!
O Amor revolta-se…
Dão-se alvíssaras a quem O encontrar…
sexta-feira, abril 21, 2006
A revolta dos pasteis...
Tem novo look , novos actores, novos sketches.
O canal 2 vai repetir os directos de quinta-feira, aos sábados e domingos, à tarde a seguir à hora de almoço.
quarta-feira, abril 19, 2006
...deixaste um beijo
Alvoraçada acordei, e deslumbrei.
Ficou o teu cheiro, e a tua graça
deixaste um beijo,
No travesseiro.
Um afago correcto, privilégio doce
Ecos supérfluos...
Palavras desaprovadas, improperadas.
Nunca soubeste o que verbalizar.
Senti apenas uma brisa no ar, foras tu.
Não te julguei, nem te senti
Ao fundo a porta a bater.
Deixaste um adeus
Sei que foi um Adeus… dos que não voltam.
Pensei que o mundo fosse nosso.
Pelo que, o Sol continua a brilhar,
As flores continuam a nascer,
A chuva não pára de cair
Permanece a lembrança…
Deixaste apenas um beijo
No travesseiro.
segunda-feira, abril 03, 2006
Os coracões tb se gastam
Um conto de Pedro Paixão
Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.
(Saudades de Nova York) - P.P.
(Saudades de Nova York)
sexta-feira, março 24, 2006
liberdade
Vejo, ao longe, a proeza. Ela pode começar.
Se eu não temer o que não fiz.
Se eu acreditar nos pedaços que posso ter.
O percurso até pode estar certo, aquele que me parece incerto.
Não existem "locais fechados"... só, as chaves certas.
Existe uma porta ao fundo da rua que se chama liberdade,
Não interessa o que sonhamos,
Não interessa o que vemos,
Não interessa que acordemos,
Ou o que poderia acontecer.
Mas para todos os mistérios, há um desvendar.
Não interessa que tenhamos de recompensar fragmentos vitais
Que se revelam ineficazes,
O que pretendo é paz e equilíbrio,
Não quero chorar pela dor ou desespero
Porém, quero lavar a alma e o pensamento.
E seguir em frente para ver o que está para lá dessa porta.
A que chamam liberdade.
pranto
(Gabriel García Marquez)
a força do pudor
Desde que se goste. Não pretendo satisfazer, todas as massas - leitores/curiosos - da blogsfera.
Achei interessante fazer uma pesquisa sobre o pudor.
Eu não sou pudica, raramente, só em situações novas e desconhecidas.
quantas vezes dizemos que: O que não se vê, mas se imagina, é mais provocador do que o que se vê normalmente, porque as circunstâncias fazem com que esse modo simples de se vestir seja o único possível e, portanto, que seja pudico. Nessas condições, a percepção do conjunto da sociedade está habituada a expressar o pudor e o "impudor" sempre dessa maneira.
Por exemplo, num contexto tribal, sem nenhuma cultura nem técnica, as circunstâncias ambientais tornam a roupa inadequada, pelo que, os indígenas, andam quase nus. O pudor costuma expressar-se dissimulando o estritamente sexual, com simples vestes. Mas quando uma mulher quer chamar a atenção do homem, o que faz é precisamente cobrir o peito. O contrário.
Quando as leis do pudor estabeleceram o que define a intimidade corporal, estabelece-se uma união entre a intimidade pessoal e a intimidade corporal. As duas caminham a par, porque a pessoa é corpo e espírito. Quando se entrega o corpo, entrega-se o espirito. E quando se abre a intimidade corporal, abre-se a intimidade pessoal. Separar esses dois factores produz uma ruptura interior da pessoa.
Por esta razão, os que se amam, procuram a intimidade.
Num momento, como o actual, em que é tão grande a carga erótica das modas, apregoada através dos meios de comunicação. Eu pergunto como manter uma atitude correcta quanto à estética da sexualidade. Convém aqui recordar que ver não é o mesmo que olhar.
Acho que se refrearmos esses impulsos da imaginação e do desejo teremos um dos meios de auto-educação.
quinta-feira, março 23, 2006
Dia da poesia
O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais..."
Sofia de Mello Breyner Andresen,
quarta-feira, março 08, 2006
Dia da Mulher
Largava o teu corpo demorado no meu,
E deitava-me com ele, sem doidices
Só para te ter mais ao pé.
Só partilhava
O sossego das manhãs,
o burburinho das tardes
E a excelência das noites.
E o rouxinol.
Ele parava à beira da janela e,
Contar-me-ia de, existências nobres,
Do gotejar da chuva.
Das danças celebradas aos que abandonam a vida
Em labirintos emaranhados.
Se, ao menos, eu te abraçasse
Ficaria descansada.
Os girassóis cresciam e,
O verão chegava.
E o “amanhecer” jamais se ofenderia
Pelo orvalho.
Se ressentia das noites sem dormir.
Se, ao menos, eu te abraçasse
Podia colher uma flor
Que morria á sede.
Trataria dela como um filho, eu tivesse.
Se, ao menos, eu te abraçasse
terça-feira, março 07, 2006
Emblemas da realidade
E retirei alguns excertos para perceber o que andamos a fazer uns com os outros. Existe, à partida, uma tomada de consciência obtusa e pouco clarividente. Intervenientes como o falta de altruísmo, de determinação e um enorme receio de dar, são uma permanência muito comum.
Outra característica tal-qualmente e que nos é inerente - fugir a sete pés do que acreditamos ou sentimos - ludibriar o nosso próprio coração, pôr em dúvida, e destruir as nossas convicções e ditar sentenças. Acima de tudo, viciá-las, de acordo, com as situações convenientes que se nos deparam na nossa vida.
“… São os percalços que nos fortalecem “…ok. Mas não são eles, também, que nos toldam as emoções, racionalizando-as? E o resultado disso, é criar imediatamente uma estrutura lógica de posições e pensamentos defensivos que, por nos serem desconhecidos ou novos, nos instigam a banir tudo que possa vir a tornar-se insuportável. Mesmo que isso não aconteça. O milagre da vida é estarmos abertos ao inesperado. Não é assim? Para o bom e para o mau.
Assumir os nossos sentimentos e, termos de lidar com eles, apavora-nos. Há quem nem os consiga identificar. “São os percalços da nossa aventura que nos fortalecem…”
“A obscura certeza de termos passado ao lado/De um amor perfeito que o tempo certamente trataria de desfigurar”.
“Certos sentimentos podem de repente viciar as cores do mundo, ou se lembra a falsa realidade que a repetição empresta às coisas.”
quarta-feira, janeiro 18, 2006
mesa de café...
Peço um ballantines. Procuro desesperada um papel e uma caneta.
Afasto o copo para um canto da mesa. E tiro de minha mala os apetrechos necessários, mas no meio de tanta confusão, um costume muito frequente, em nós, mulheres, lá consigo encontrá-los. E escrevo o que me vem à cabeça.
Que rosto terão as palavras, quando os ventos sopram em direcção contrária …
Proteger o peito de rosas, banhar os lábios de paixão, atenuar forças contrárias, mas não basta. Nunca bastou. Será necessário construir de novo os acasos que me cercam, enchendo as noites. Perdi-os.
E a pele estica-se ao máximo e envelhece após qualquer verão crespo.
E se fosse inverno, jorraria dela a mesma viscosidade clandestina, como de quem habita um espaço que não lhe pertence.
E ofender o céu e a lua, seria distanciar-me cada vez mais de mim.
Qualquer atitude definitiva mentir-me-á. Porém, se continuo quieta á semelhança de uma rocha, acabo por impelir a energia no meu coração. Não existe jardim que me cure do travo da revolta. Parecerei uma condenada, sem nome nem sexo, apenas um pedaço de entusiasmo liquido, prestes a ebulir.
Farta de ali estar, rasguei o pedaço escrito da toalha de mesa e guardei-o num bolso.
Pedi a conta. Olhei o relógio. Já era meia-noite e meia. Saí da tasca e caminhei ao acaso, pelas ruas estreitas, confundida nas sombras, escutando à medida que passava pelas portas dos bares, sons variados de batidas quentes. Avançava sem sono. Já eram, mais que, horas de ir para casa.
terça-feira, janeiro 10, 2006
To Grace
Mas, enquanto houver amizade,
faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
um do outro havemos de nos lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente.
Cada vez de forma diferente,
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para se viver a vida:
Uma é acreditar que não existe milagres.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
(1879-1955)
A criança que fui chora na estrada
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando Pessoa
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Another year and all the same
Neste fim-de-semana vi, finalmente, o Dogville. De longe, uma das melhores peças que já vi sobre relações humanas. É uma homenagem, muito bem produzida, às características humanas, ao relacionamento e à grande aptidão que o Homem tem em julgar o próximo. Ora, o julgamento é de longe a arma e a marca mais poderosa, a meu ver, de como somos humanos. Viver em comunidade. É difícil, claro que é. E com todo este poder que fomos desenvolvendo ao longo da vida, vem ao de cima, tudo o que temos de pior. O orgulho, a inveja, a insegurança, a luxúria, o ódio, a vingança. Obviamente, que há mais. E se pensarmos um pouco, todos os pedaços piores lutam apenas, contra um, que nem sempre vence. O Amor. O Amor Universal. O amor sob todas as suas formas. Não deveria ser ele a vencer?
É certo que é um contra muitos. Mas se acreditarmos veemente que “ele” tem mais força do que todos os outros. Deveria vencer. Afinal o Amor não vence tudo. Parece-me, de repente, uma utopia. Deus foi crucificado porque tentou comprovar que existe Amor. “Tantos eram contra ele”. E acabou crucificado, perdeu a sua credibilidade e ainda foi gozado. Portanto, quando se diz que o Amor vence tudo. Não é bem assim. Afinal, de que andamos a fugir, se necessitamos de nos defender com armas tão decadentes e tão pútridas.
E mais um ano promete vincar todas essas opções, senão desenvolvidas, preocupar-nos-emos em desenvolvê-las.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
a impetuosidade do Natal
terça-feira, dezembro 13, 2005
Uma campanha alegre
http://www.releituras.com/equeiroz_menu.asp
segunda-feira, dezembro 12, 2005

Nunca se fala das mãos.
Elas dizem tanto e tão pouco.
Elas, falam de nós.
Elas também, fazem por nós.
Elas traçam percursos que só, aos entendidos, deixam ler.
Revestidas por pele, nervos e veias elas exprimem a nossa personalidade.
confere-lhes o poder delicado de tocar, cheirar, sentir e beber.
São felizes, não sentem culpa.
Falam, simplesmente pelo toque.
descobrem, pelo cheiro.
Abrem portas definhadas de vidas sofridas, calejadas pelo tempo.
escritas amargas de dores inesqueciveis. Algumas irreveláveis.
Outras sabem esquartejar, matar e banir.
nunca aprenderam a pintar e a esculpir.
Mas elas falam de nós.
terça-feira, dezembro 06, 2005
"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá a falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa
segunda-feira, novembro 28, 2005
Traz, de novo, contigo o poder de uma doce metamorfose
Entre pétalas e ramagens,
anuncias rendez-vous esbatido em cores e cheiros.
Assemelhas-te a, ósculos que ao de leve tocam e marcam.
Em tempos, jorravas brisa constrangida, numa jocosidade impetuosa,
Recordo um rio a fluir, maresia, o mar profundo …
torrentes espalhadas figurantes, entrelaçavam-se em vagas
dilaceradas por qualquer embarcação.
No entanto, mimavas a imensidão pura e selvática,
Sabia o que fazer... descaradamente me alumiavas.
Continuas a ser aquele beijo que nunca mais vi,
Para mim eras mar e vento,
Eras a natureza em bruto,
A nostalgia lembra-te belo e ténue
Época houve, em que me perdia em ti,
Uniam-se à minha chegada e,
Eras uma doçura, quase incompreensível ao sabor.
Gosto, toque, doce ainda te tenho na boca.
Hoje belicosamente só me sabes a sal,
tormentas interiores abandonadas em saliva,
sobrevivem às reminiscências …
Desejo. Visualizo-te. Ao longe. És degrau superior.
Porque me enjeitas.
Longos foram os dias q te bradei, sem resposta
Desafiavas-me, não te reconheço
Pouco te estimei e, foste desenvolvendo espaço vazio.
Vazio, Vão. Oco. Lembranças incompletas,
Palavras rasuradas, inconsequentes
Ofensas destronadas, gestos arrojados.
Só te recordo em bruto.
Ainda eras um molde por descortinar que,
Converti num todo, e basilar, vivias.
Reagias ao olhar, ao toque, ao coração,
E ao teu perfume, criámos a melodia certa
Meiguices dançantes, beijos memoráveis
Na tua música engrandeci.
Recordo-te (em) bruto.
És beijo que não esqueci.
quarta-feira, outubro 26, 2005
Respiro o teu corpo
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Eugénio de Andrade
terça-feira, outubro 25, 2005
África (doce viciante)
Sonhei um dia
Com as tuas cores
Com o teu perfume
Com o teu sabor,
Provei-te e acaricio-te
Quero sempre mais e
devagar uso o teu gosto.
Sinto a tua falta mas,
se um dia me atrever
cedo à sedução
Que estremecia
naquele horizonte sem fim.
Era Agosto e estava quente
ardia de contentamento.
E o meu corpo viciou-se em ti.
Ainda sonho.
o tempo do Rossio
pecúlio ilustre de existências calejadas,
paredes frias entranhadas de estorias dificeis,
e azedumes de uma ou outra mulher,
escada rolante ou tapete que, corpos infindáveis carregava,
resistentes ou calosos, anafados ou escanzelados,
para cima e para baixo, eram as regras de outrora,
foram do seu tempo, tempo azedo.
por onde se passava,
o relógio lá falava e foi-se gastando o tempo.
O moço, cauteleiro ou jornaleiro
já não tem onde vender.
E os habitués, onde correr.
Aglomerações se viam, sem conta
ancoradouro étnico, cenários mistos
peles combinadas, cabelos multicores,
já não têm porque dançar.
A trote se pavoneavam pelas redondezas,
culturais ou coloridas, de cinzento, ou de preto
e as bilheteiras imponentes, lá cuspiam
os seus bilhetes.
E a azáfama, descontinuada.
Media o tempo do Rossio.
Estação. Rossio. Relógio. Bilheteira.
Escadas. Rolantes. Gentes.
O dia, ainda mal dormia.
Nunca me esqueci de ti
Bato a porta devagar,
Olho só mais uma vez
Como é tão bonita esta avenida...
É o cais. Flor do cais:
Águas mansas e a nudez
Frágil como as asas de uma vida
É o riso, é a lágrima
A expressão incontrolada
Não podia ser de outra maneira
É a sorte, é a sina
Uma mão cheia de nada
E o mundo à cabeceira
Mas nunca
Me esqueci de ti
Tudo muda, tudo parte
Tudo tem o seu avesso.
Frágil a memória da paixão...
É a lua. Fim da tarde
É a brisa onde adormeço
Quente como a tua mão
Mas nunca
Me esqueci de ti
João Monge / Rui Veloso
Saiu para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura
Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho
Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão
Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura
Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura
Letra de Rui Veloso
segunda-feira, outubro 24, 2005
Almost granted
quinta-feira, outubro 20, 2005
Palavras de Outono
As faces perdem brilho. O Verão já lá vai.
Os dias são baços e pequenos, de uma insignificante palidez.
O olhar, as falas, há indefinições no caminhar.
O cinza chuvoso empalidece o ruído da avenida
traçando calor sem cor.
As manhãs de outono fogem à definição,
misturam-se em nuvens pesadas nalguns raios de sol
e o amarelo enfraquecido alimenta algumas árvores
(estranhas).
O anoitecer perde-se;
o cinza assume — como o chumbo, escuro.
O céu torna-se mais baixo — pode-se tocá-lo
Arranco um pedaço,
húmido, frio como o cansaço, e o asfalto é sujo
e tinge-me as mãos.
Insisto em pincelar de vermelho, em tons de azul
e aquele amarelo girassol hiato no passado.
As pinceladas tornam-se pesadas.
como os prédios cinza, (enormes prédios cinza)
tão pesados como os vagões cinza, lotados de pessoas
sombrias e, escravas das suas horas cinzas..
Sento-me diante da janela suja:
à espera do sol, à espera do próximo Verão.
A vida se esvai em sons vagos por repressões, ambições vulgares e estúpidas,
são gestos inconscientes em esboços constantes no lençol frio.
o olhar de silêncio é inerte,
divaga o sorriso lento e meus pés ficam cansados
e os sons das minhas mãos beijam terra e pó
em pequenas taças de vinho e sal.
Ecos de uma linha tênue
fragmentos de saudades,
emoções dispersas e soltas
nalgum asfalto cinzento desconsolado.
Lembro-me vagamente destes resquícios,
sensações prazerosas, só já são
apenas traços que a chuva, tenazmente, inunda.
SInce September
segunda-feira, setembro 05, 2005
Rentrée
sexta-feira, agosto 12, 2005
A vida é bela
Complicamos as coisas simples, guerreamos por insignificâncias, vemos o mal onde ele nao existe, destruimos a nossa paz que nasce intacta e ao invés de a alimentarmos só a vergamos à nossa imagem, à nossa maneira. E temos, ainda, de conviver com tanta coisa que odiamos: guerra, poluição, miséria, fome, falta de amor, ganância, poder e, como se não bastasse temos de lidar com a doença, com a morte. É terrivel.
Lembro-me de uma amiga me dizer, em tempos, que ficava feliz e infeliz com o nascimento de uma criança. Percebi quando ela me explicou o porquê dessa infelicidade. O facto de vir mais uma criança a este mundo com tanta coisa que ela tem de assistir, de ver, de sentir na pele como todos nós, coisas que nos desagradam. Se pensarmos que este mundo está cada vez pior e se agrava com o passar dos anos, então que futuro risonho e saudável se pode dar a uma criança. Todo um processo de dor e sofrimento. É óbvio que as coisas boas como a alegria, o amor, a bondade, a solidariedade, também fazem parte. Mas há crianças que, infelizmente, nunca conhecem esse mundo, convivem toda a vida com o lado mau. É justo? Não sei bem. Acho que, por vezes, não sabemos o que fazer com a vida. À nossa disposição, ela passa por nós e nem nos apercebemos que envelhecemos. Com o bom e com o mau, ou o menos bom.
Mas é tão belo estar vivo.
quinta-feira, agosto 04, 2005
Desajuste
Naquelas ocasiões especiais, como férias, ou licenças de maternidade ou paternidade, ou saídas repentinas sem motivo aparente ... os serviços ficam sempre por metade e é quando é. Mas há que dar feed back aos que ficam por lá, os que trabalham e mantem o funcionamento, enquanto a outra metade está de férias. Mas não se entende. Os serviços, nessas alturas, deveriam ser assegurados, mas não é o que acontece. Muitas das vezes, não desenvolvem, nem fazem por cumprir o que lhes é destinado. Acha-se que por estar pouca gente no serviço não vai haver problemas. - Errado, é precisamente o contrário - O que vem no contrato deve ser cumprido; tarefas, funções, cumprimentos são talhados inicialmente, assim como, deverão ser mantidos até vencer o prazo do contrato. É para isso que são pagos. Pelos serviços prestados à empresa Y.
segunda-feira, agosto 01, 2005
Desamor
De jogos estúpidos e agéis, de formatações virais que contaminam a nossa vida.
Vencem-nos sempre, trapaceiam-nos e moldam o nosso comportamento.
Da nossa vontade que, às tantas, deixa de funcionar.
De orgulhos parvos, de feridas que não saram.
De presunções, sem sentido, de que somos melhores.
Afinal o que a vida nos tem reservado?
Uma infindável hipocrisia e insensibilidade de que tudo corre bem.
De futilidades banais que nos emperram momentos sãos e alegres.
De referências que se estragam, de códigos que nunca se alteram.
De que somos felizes neste ínfimo corre-corre gasto e inverosimil. Será?
De paixões, significados, cumplicidades, desabafos, isso é bom...
Mas a questão é que se vestem de jovial, infantil ou maduro, não deixando de transparecer
um rasgo a hesitante e brutalmente agressivo.
Mas a saudade. Essa dá cabo de nós. Moe-nos, macera-nos e deixa-nos cada vez mais fracos e desapegados. O Desamor vence. Como tem vencido sempre. Desde que o homem se conhece.
Desde que se inventaram os casamentos entre familias de casta, de condição, desde que se inventaram as relações de negócios, desde que se inventaram as regras, os padrões, as igualdades, as estirpes. Desde que apareceu o ressentimento e a desilusão. A desconfiança.
Chega de mansinho e veste a pele de lobo, aparecendo-nos por vezes, de cordeiro, para que não nos sofregue tão depresssa, os tais instantes.
Afinal, o que se anda a fazer?No fim de toda esta odisseia bela, fugaz e rápida, reserva-se-nos a morte. A morte é certa. E o que nos resta? Começamos a contar pelos dedos os ápices que nos encheram a vida. Será necessário haver tanto desamor, tanta raiva, tanta luta para nos desamarmos e desamarem-nos?
Ah, pois é verdade! Temos de provar tanta coisa aos outros e a nós, e nisso o Homem, é eximio quanto baste.
terça-feira, julho 19, 2005
Significados...
quinta-feira, julho 14, 2005
tipo de filme
Você é "O sétimo selo" de Ingmar Bergman. Você é intelectual, preocupado com ocultismos. E além de tudo é um mistério!!
Faça você também Que bom filme é você? Uma criação de
quarta-feira, julho 13, 2005
Ocorre-me
terça-feira, julho 12, 2005
Um Pouco de silêncio, ao invés
Shu... Deixa-me falar…
Há tanto, que te quero contar
Desbravas-me a alma, sequiosa, por desassossego.
Invades pela quietude de minutos, pouco antes de eu adormecer.
Prenúncio voraz.
Soas a gritos mudos, onde os nus coniventes se baralham na insegurança,
Shu... apoquentas-me, ensurdecência, e fazes-me mal, como te desejo.
Sobre (vivo) nesta mudez platónica, não reclamo o que sinto, nem o que contemplaria.
Quero-te nem que seja para te revelar e, logo a seguir, te olvidar.
Shu... permite, ao menos, que te cantarole ou encante, mesmo que o feitiço te insurja ténue.
Carregas certo silêncio que me desconcentra, insubordina-me, em azáfama, e esvaece-se.
Obedeço a atitudes, vão e vêm tardias sob a forma de quimeras ansiosas,
Afinal, não passas de um devaneio silencioso.
Sem principio, nem fim. Só me lembro do meio.
Que tal, resistir-te. Guardar-te no pensamento onde só existe beleza.
Shu … leio-te, cheiro-te, tento não esmiuçar o que não quero ver, mas inebrias-me com
um penetrante bom dia e, logo a seguir, me desamparas com um contido até amanhã.
Shu … escuta
Desfalecerás como todas as extravagâncias platónicas.
Não passas de mais uma inexequível.
Palavras que mal saem de tua boca, são gestos sem leitura possível.
Trejeitos e sons, como se palrasses com uma criança. É o que tu és. É o que eu sou.
Shu…deixa-me falar
Entendo-te. Infantilidade sadia e crescente.
Sonho e porque não? Se me coagi a escrever sobre ti, poderias ser Platão.
Silencio, ao invés, de te anunciar que me desamanhas
Distancio-me sem perdão, sem espera, nem aviso.
Não te ouvi chegar.
segunda-feira, junho 27, 2005
Um pouco de silêncio I
Surge um pouco de silêncio nas palavras que me assaltam à noite.
Um pouco de silêncio, por favor.
Como que surgissem perversas, desenquadradas, desacertadas e julgadas durante o dia, como se elas deixassem de fazer sentido? Não seguem o seu rumo, tornaram-se desnaturais, e as que desensinam, e as outras simples reerguem-se sem som. Mudas, e inalcançáveis.
Ter-vos-ão dito que, sem voz, são secas. Ninguém as lê. Nem as entende. Niguém as ouve. Caem no marasmo do esquecimento, transformado num deserto de sal.
Palavras, letras, ditos, expressividades que se perdem. O trato num sem tacto. Elas escapolem na mente adversa de gentes. Sem rumo, sem destino.
Um pouco de silêncio por mim. Por favor.
Neste pouco silêncio que me resta nem, a quem amo, me ouve.
No pouco silêncio, a quem tento compreender, me vê. Eu estive sempre aqui.
Já não me ouves, já nem me sentes, já nem me cheiras. Talvez o odor se tenha esgotado, mesmo. Não sei.
A voz tenha doído tanto, que grito por um pouco de silêncio.
terça-feira, maio 31, 2005
Dias para tudo...
Mentirinhas graves que o nosso governo tem vindo a cometer. Para eles, é só ficarmos depenados, que está tudo bem. Juntos venceremos, os portugueses têm um dom para a tolerância que só visto. Não há governo que se "empoleire" que não minta. Portanto, nós que nem temos, nada a ver com o défice. Pelo menos, directamente, é que vamos ter de pagar a conta. Os governos anteriores fizeram a "merda" que fizeram. E nós, os trabalhadores, os que dão duro, os que pouco têm, os que ganham pouco, os que passam fome, ou que vão passar - nunca se sabe -, é que se vão ver gregos para pagar a factura contraída por eles. Aqueles que fogem ao fisco, que viajam com o nosso dinheiro, que lhes é tudo pago; desde telemóveis, a viatura, telefone fixo, etc. Porqe não pagarmos também as suas casas? Não se lembraram ainda!
Ora, isto é de uma injustiça sem explicação.
segunda-feira, maio 30, 2005
O "não" da França
França diz "não""O dia mais não", escreve hoje em manchete o diário francês de esquerda "Libération" a propósito da votação de ontem no referendo sobre a Constituição europeia, que recolheu mais votos contra o documento. A esquerda e a direita francesas estão profundamente divididas sobre esta questão.
Publicado no Público a 30 de Maio de 2005
sexta-feira, maio 27, 2005
HANS CHRISTIAN ANDERSEN
Danish author (1805-1875)
Ontem, par hasard, estava a dar no 2º canal um filme sobre este autor.
segunda-feira, maio 23, 2005
Perpétuas
A nudez, natural, bucólica.
Traz a vida e a morte, e quão queda serena, o cair das folhas no leito doce da terra.
Lembra o sentido da vida, trazendo calma à simplicidade do sonho.
Sossega o Outono que nunca mais tem fim.
Amássemos que...
Sentes-te, caído, sentenciado e, constantemente, avaliado, como se recuperasses de uma tremenda bebedeira. Como se te sentisses achincalhado e achas que não fazes parte do clã. Ainda que gostemos de ti. E tenhamos pena do que te tem acontecido. Mas és um querido. Contudo, manténs-te calado. Como se nada afectasse essa embriaguez. Deixas-te levar pela graça que as palavras têm nesse instante.
Só te lembras de manhã, quando acordas sobressaltado e com uma ressaca maior do que a bebedeira da noite anterior, de que poderias ter-te insurgido. Sentes-te mal. O que fizeste? Aceitaste. Reconheceste o erro. Sabendo à partida que a ressaca é um sentimento que justifica a autodefesa.
Sabendo que a alegação, é também um direito que te assiste, porque não empregá-la? Seria verdade? Ter-te-á o medo, de ti, apoderado, por irdes magoar quem não querias perder. Talvez, em parte. Contudo, hoje, vês as coisas de outra forma. Não que o erro seja reconhecido, só, pela metade. Mas a verdade é que, muitas das vezes, há metades certas e outras redondamente erradas.
Porque é tão importante medir e avaliar o regulamento social e financeiro para que te aceitem. Para que não tê sintas marginal. Inconscientemente, fazem com que te sintas excluído dum procedimento parvo e convencional. Nada fazes para mudar. Mas também nada fazes para te defenderes. Se nada nesta vida dura e vence. Só te ficam as recordações boas e más.
Vivências que, temporariamente, buscas para justificares os momentos felizes da tua vida. Os verdadeiros amigos, aqueles que se preocupam contigo. Os que gostam verdadeiramente de ti. Esses, sem dó nem perdão, dizem-te que erraste e erras. Lidar com tal é, verdadeira e perversamente, frustrante.
Mas também te cobram condição, e imagem representativa, aquela a que, sempre, estiveste acostumado. Nela te inserem ou te inseriste, sem dar por isso, desde muito cedo. Não será por isso que aguardam que ajas de determinada forma em determinado contexto. É muito vago, é certo. Mas é tão verdade e tão castrante. A vida, a mal ou a bem, ensina-nos o seguinte: se queremos vencer, se queremos aprender, singrar na vida temos de nos aliar aos que encabeçam.
Errado é. Sempre será. Mas não teremos, nós, o direito à escolha. Impingem, a toda hora, modelos e traços que devemos respeitar a um arquétipo de existência e feição de viver. Infelizmente, assim se passa. E é assim que agimos perante o mundo. É assim que agimos com os que nos rodeiam. Estipulamos padrões e degraus que devemos seguir. Ou seguimos essas pisadas, ou se não a imitarmos, somos diferentes, somos postos à borda de tudo. Colocados numa outra cerca que diferencia classes, categorias, laias, grupos, estirpes, castas, ascendências, sangues, etc.
O interesse, a vantagem e a utilidade são, hoje, palavras, atitudes, posturas, gestos que se vinculam fortes e redutores, finalizando em nós, um baptismo de sinónimos como a grandeza da nossa condição mais conveniente e determinante.
Será preciso tanto dogma, tanto cargo, tanto escalão, tanta imensidão para conquistar tanta “superficialidade” e no fim, o que fica para que te reconheçam nos dias que te faltam?
- Apesar de tudo, era uma excelente pessoa, e tão gratificante foi, tê-la(o) conhecido.
- Ou sempre foi um coitado, não teve sorte na vida. Nem filhos teve para perpetuar o apelido.
Mas será que, hoje, o amor já não vence?
Parece que tudo contrai podridão e caruncho.
terça-feira, maio 17, 2005
LES CHORISTES
Vi este fim de semana um filme a não perder!
É de uma ternura extrema.
Faz lembrar um pouco o - "clube dos poetas mortos" - a união e a cumplicidade que existia entre os alunos. Este filme, apesar de, se situar num ambiente - tipo de colégio - diferente que alberga crianças de outro estatuto. Pobres, orfãos, etc. Não deixa de ser, também, um excelente filme.
segunda-feira, maio 16, 2005
Morre lentamente
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o escuro ao invés do claro e os pingos nos is a um redemoinho de emoções, exactamente a que resgata o brilho nos olhos, o sorriso nos lábios e coração ao tropeços.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto, para ir atrás de um sonho.
Morre lentamente quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, ouvir conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte, ou da chuva incessante.
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, nunca pergunta sobre um assunto que desconhece e nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em suaves porções, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples ar que respiramos.
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade.
Pablo Neruda
ambígua a vida, não?
Ter, não ter
Saber, não saber
Estar, não estar
Querer, não querer
Sentir, não sentir
Chorar, não chorar
Rir, não rir
Apetecer, não apetecer... Não me apetece ter de me apetecer. Só me sinto bem onde não estou! Tento perceber estas querenças ambíguas. Ou não há explicação. E nem tem de haver. Quem sabe! Querer paz e querer luta. Dar sem querer receber. Dar para receber. Querer amar, não querer amar. Querer ser amado, não querer ser amado. Estranha feição de me ver.
Conhecer-me-ei verdadeiramente?
Tantos e tantos verbos, e quantas horas demorariam a achar um que se ajustasse à asserção. As palavras, hoje, ganham autonomia e assertividade pelos sentidos bocais arrojados, de e a quem faz sentido.
É bonito, é chavão, é intenso. E não é por isso que a profundidade caracteriza as palavras, encantando quem as entende, ainda que, assumam sensibilidades e sentidos extremos, mesmo que por vezes, não tenham nexo. Prosperamente, existem pessoas a quem as palavras deslumbram. A criatividade que as palavras propõem carregar, só o que se assume mais fragil e sensível, as decifra. Transportam tal impressionabilidade em códigos viciantes e sedutores, que a magia e a paixão que as palavras obtêm, faz com que contemplemos outro mundo. Que seja o da fantasia. E porque não?
A vida, por si, já é dura e concreta demais, para que nos mantenhamos neste estado de desgraça em que andamos - Cegos, insensíveis, inodoros, mortos - ou melhor, sobrevivemos. Nem é tanto assim.
Pablo Neruda, num dos seus poemas, dizia: ... morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito...
Catálogos e mais rótulos
Inevitavelmente, se pensarmos um pouco, já rotulámos alguém. Por qualquer motivo, provavelmente, estapafúrdio. Mas não é o ser humano, como animal pensador que é, que evita discernir essas discrepâncias? Claro que sim.
As nossas actuações revelam uma conduta habitual, neste sentido, o que faz de nós, insensíveis à palavra, e ao entendimento sagaz.
O encadeamento do nosso pensamento tolda-nos, muitas das vezes, o raciocínio que se pode tornar lógico ou ser agradavelmente iluminado e surpreendido, para que a ideia que possamos ter do alter – o outro – surja deturpada. Desfiguramos à partida qualquer ser que não gostemos. E por aí afora, vem o rótulo, a decepção, o desencanto, enfim toda uma série de defeitos aos nossos olhos.
- Não fazes parte do meu meio social e económico, não te identificas comigo, não me agradas, cheiras mal, não sabes falar, não tens formação superior, não me és compatível, para mim não serves – Estes e outros pensamentos prioritários que nos assaltam a medíocre organização da nossa intacta natureza mental. É a de que dispomos. E é inviolável. E não fazemos qualquer triagem, doa a quem doer.
Ora, os catálogos são necessários. É uma verdade. Colocada sobre nós e assente. Pensemos num catálogo vulgar. O seu objectivo principal é vir inscrito a discriminação das propriedades, assim como, o preço adjunto aos produtos. Utilizado, somente, em objectos, coisas, assuntos, temas, se quereis ter uma leitura mais abrangente. Nunca a, pessoas. Mas que o fazemos, sem dúvida alguma. Vivemos com esta ideia disposta. Para tudo, é preciso catálogos, rótulos, índices, róis, listas e estruturas sempre iguais e definidas.
Senão, abalroamo-nos ou abalroam-nos. A nossa estrutura está tão sedimentada e criada pelas nossas famílias e pelas leis sociais. Elas têm de se manter e continuar preservadas. Será que nunca o sentimos na pele?
sexta-feira, abril 29, 2005
Como vai a nossa polícia
Até aqui tudo bem, digamos que, como tem havido uma guerra com a EMEL entre as Câmaras Municipais de Lisboa e de Loures, estaciona-se onde se pode até porque os parquímetros que há, não funcionam.
Além disso, esta zona está cada vez mais povoada de escritórios e não temos sitio para estacionar. Não querendo ir contra a aplicação da lei, toda a gente, se pensarmos assim, deveria ser multada. Não se passam multas, só porque se embirra com determinada viatura. E isso acontece frequentemente.
Mas a questão, é preocupante. A minha colega principiou, desta feita, uma cruzada com todos os serviços inerentes ao problema e quase sem sucesso. Sem exagero, fez dezenas de telefonemas. O único lado positivo desta estória, é que se fica com todos os contactos, para uma eventual repetição.
Depois soube-se que o parque do Campo Grande - se não me falha a memória - não tem telefone, e ontem houve futebol. Como eles se comunicam por rádio, era impossível saber, naquela altura, daquela informação. Ela tinha de esperar que o jogo acabasse. Os rádios estavam ocupados só para aquilo.
quarta-feira, abril 27, 2005
Qual quê
Quanta poesia se perde pelos trilhos de cada dia.
Somos figurantes e figurinos das nossas próprias locuções.
Plateias dos nossos trechos, certezas únicas transformadas em letras que se vão esbatendo na insignificância, na desilusão, na inoportunidade, no desencanto do tempo.
Qual quê: o que nos é fadado, o que temos espetado no corpo desde que nascemos, desde que somos gente, desde que nos conhecemos, desde que nos conhecem.
Esperam um cumprimento de regras, falsas anuências, verdadeiras asperezas, incongruências, obliquidades e formatações despropositadas.
sensibilidade à flor da pele
Há sempre filmes que nos comovem, verdadeiramente. Os que nos marcam de uma forma negativa ou positiva, por ter uma ou outra cena, comovente ou chocante. Alguns deles são um marco na história do cinema. E o "Cinema Paraíso" é um deles.
Ultimamente, tenho tido a oportunidade de ver outros filmes bons, e também europeus, que não conhecia. Já tinha ouvido falar deles, mas nunca tinha conseguido vê-los. Um grande feitio ter comprado um DVD, para aderir às novas tecnologias, e enriquecer cinematograficamente.
Este "Cinema Paraíso" de Giuseppe Tornatore é uma verdadeira reliquia. Já o vi quatro vezes e choro sempre. Principalmente com o final. É um, dos finais mais mágicos e perfeitos.
terça-feira, abril 26, 2005
Há sempre alguém que nos faz falta
simplicidade frágil
quarta-feira, abril 20, 2005
Guillotine...
apresenta
GUILLOTINE
Sinopse Num mundo onde as pessoas são até ao pescoço, são até onde se podem encharcar de enjoo...
Resta o som cortante da lâmina.
Com texto de Andreia Farinha
Interpretação Mia Farr Tatiana Nozes Pires
Cenografia Andreia Farinha
Figurinos e Caracterização Carla Ferreira Rita Guerreiro
Encenação do colectivo
Beijo
Parabéns à Andreia







