segunda-feira, maio 23, 2005

Amássemos que...

Porque reages a algumas pessoas e a outras, nem por isso? A reacção surge anormalmente, para te defenderes, ainda que tenhas ou não razão. Não é o que todo o ser humano faz? Então?

Sentes-te, caído, sentenciado e, constantemente, avaliado, como se recuperasses de uma tremenda bebedeira. Como se te sentisses achincalhado e achas que não fazes parte do clã. Ainda que gostemos de ti. E tenhamos pena do que te tem acontecido. Mas és um querido. Contudo, manténs-te calado. Como se nada afectasse essa embriaguez. Deixas-te levar pela graça que as palavras têm nesse instante.

Só te lembras de manhã, quando acordas sobressaltado e com uma ressaca maior do que a bebedeira da noite anterior, de que poderias ter-te insurgido. Sentes-te mal. O que fizeste? Aceitaste. Reconheceste o erro. Sabendo à partida que a ressaca é um sentimento que justifica a autodefesa.

Sabendo que a alegação, é também um direito que te assiste, porque não empregá-la? Seria verdade? Ter-te-á o medo, de ti, apoderado, por irdes magoar quem não querias perder. Talvez, em parte. Contudo, hoje, vês as coisas de outra forma. Não que o erro seja reconhecido, só, pela metade. Mas a verdade é que, muitas das vezes, há metades certas e outras redondamente erradas.

Porque é tão importante medir e avaliar o regulamento social e financeiro para que te aceitem. Para que não tê sintas marginal. Inconscientemente, fazem com que te sintas excluído dum procedimento parvo e convencional. Nada fazes para mudar. Mas também nada fazes para te defenderes. Se nada nesta vida dura e vence. Só te ficam as recordações boas e más.

Vivências que, temporariamente, buscas para justificares os momentos felizes da tua vida. Os verdadeiros amigos, aqueles que se preocupam contigo. Os que gostam verdadeiramente de ti. Esses, sem dó nem perdão, dizem-te que erraste e erras. Lidar com tal é, verdadeira e perversamente, frustrante.

Mas também te cobram condição, e imagem representativa, aquela a que, sempre, estiveste acostumado. Nela te inserem ou te inseriste, sem dar por isso, desde muito cedo. Não será por isso que aguardam que ajas de determinada forma em determinado contexto. É muito vago, é certo. Mas é tão verdade e tão castrante. A vida, a mal ou a bem, ensina-nos o seguinte: se queremos vencer, se queremos aprender, singrar na vida temos de nos aliar aos que encabeçam.

Errado é. Sempre será. Mas não teremos, nós, o direito à escolha. Impingem, a toda hora, modelos e traços que devemos respeitar a um arquétipo de existência e feição de viver. Infelizmente, assim se passa. E é assim que agimos perante o mundo. É assim que agimos com os que nos rodeiam. Estipulamos padrões e degraus que devemos seguir. Ou seguimos essas pisadas, ou se não a imitarmos, somos diferentes, somos postos à borda de tudo. Colocados numa outra cerca que diferencia classes, categorias, laias, grupos, estirpes, castas, ascendências, sangues, etc.

O interesse, a vantagem e a utilidade são, hoje, palavras, atitudes, posturas, gestos que se vinculam fortes e redutores, finalizando em nós, um baptismo de sinónimos como a grandeza da nossa condição mais conveniente e determinante.

Será preciso tanto dogma, tanto cargo, tanto escalão, tanta imensidão para conquistar tanta “superficialidade” e no fim, o que fica para que te reconheçam nos dias que te faltam?

- Apesar de tudo, era uma excelente pessoa, e tão gratificante foi, tê-la(o) conhecido.

- Ou sempre foi um coitado, não teve sorte na vida. Nem filhos teve para perpetuar o apelido.

Mas será que, hoje, o amor já não vence?

Parece que tudo contrai podridão e caruncho.

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