Pela manhã, as palavras acizentam-se;
As faces perdem brilho. O Verão já lá vai.
Os dias são baços e pequenos, de uma insignificante palidez.
O olhar, as falas, há indefinições no caminhar.
O cinza chuvoso empalidece o ruído da avenida
traçando calor sem cor.
As manhãs de outono fogem à definição,
misturam-se em nuvens pesadas nalguns raios de sol
e o amarelo enfraquecido alimenta algumas árvores
(estranhas).
O anoitecer perde-se;
o cinza assume — como o chumbo, escuro.
O céu torna-se mais baixo — pode-se tocá-lo
Arranco um pedaço,
húmido, frio como o cansaço, e o asfalto é sujo
e tinge-me as mãos.
Insisto em pincelar de vermelho, em tons de azul
e aquele amarelo girassol hiato no passado.
As pinceladas tornam-se pesadas.
como os prédios cinza, (enormes prédios cinza)
tão pesados como os vagões cinza, lotados de pessoas
sombrias e, escravas das suas horas cinzas..
Sento-me diante da janela suja:
à espera do sol, à espera do próximo Verão.
A vida se esvai em sons vagos por repressões, ambições vulgares e estúpidas,
são gestos inconscientes em esboços constantes no lençol frio.
o olhar de silêncio é inerte,
divaga o sorriso lento e meus pés ficam cansados
e os sons das minhas mãos beijam terra e pó
em pequenas taças de vinho e sal.
Ecos de uma linha tênue
fragmentos de saudades,
emoções dispersas e soltas
nalgum asfalto cinzento desconsolado.
Lembro-me vagamente destes resquícios,
sensações prazerosas, só já são
apenas traços que a chuva, tenazmente, inunda.
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