quarta-feira, fevereiro 23, 2005

... quase Vila de Panóias





Quem se lembraria de botar este nome a uma aldeia, que é - note-se - quase vila.
Panóias, freguesia de Ourique, concelho de Beja. Um cantinho pitoresco e pachorrento, como se quer em qualquer aldeia alentejana. População: 634 habitantes com uma área de 11.035 hectares. Habitação: casas baixinhas com predominância de azul e amarelo. Apesar de pequena, é asseada e acolhedoramente caprichosa.
Um cantinho de Portugal que, ainda, se mantém bem cuidado pelos locatários e que primam pela simpatia. Hoje, quem a visita sente-se acolhido e é um local onde se respira hospitalidade e amizade.

A minha avó Clotilde nasceu nesta aldeia. O meu pai e os meus bisavôs, enfim, grande parte da família de meu pai nasceu e viveu lá, durante muitos anos. Noutros tempos, era difícil. Uma família de poucas posses. Os meus bisavôs passaram por muitas provações. Conta a minha avó, que suportaram fome e frio. Os pais dela trabalhavam de sol a sol, juntamente com os seus seis filhos para terem que comer e que vestir. Viviam do campo e do que a natureza produzia. Tinham um quintal onde cultivam batata, feijão, cenoura, alface, couves, nabos. Também havia pouca carne. E a que havia, nem se lhe podia chegar, pois era excessivamente cara. O dinheiro não chegava para tudo. O meu bisavô e avô, viviam de cortar cabelos. O meu pai aprendera o ofício, tal-qualmente lá. E toda a sua vida, fora barbeiro.

Ao lado da casa havia um quintal, onde o meu bisavô construíra um pequeno anexo. Nesse anexo, existia um forno. Onde faziam o seu próprio pão. Começaram por vender para fora. Bolinhos e outros biscoitos faziam parte do preçário. E esse costume e ofício acompanhou a minha avó, durante largos anos. Se bem que, hoje em dia, lhe falte as forças, ainda faz os tradicionais folares a saber a erva-doce pela Páscoa e as tão deliciosas filhoses pelo Natal e pelo Carnaval. Tradição da sua terra.
Todos os anos, sem excepção, me pede para ir visitar a sua aldeia. Começa a ter necessidade em contemplar lugares, de recordar pessoas que já faleceram, de confidenciar coisas que lhe aconteceram. E é extraordinária, a sua lucidez. Conta sempre estórias novas, nunca ou quase, nunca repetidas. Uma excelente companhia. Não deixa de ser uma grande referência na minha vida. A minha estrela da sorte.

Passei alguns verões, quando andava na escola e tinha aquelas big-férias de três meses. Todos tínhamos. Portanto, as recordações que tenho são as melhores. As únicas referências que encontrei a esta aldeia, são fotografias da Escola Básica que existe e pouco mais, e é pena. Recolhi algumas fotografias.
Na busca que fiz no google, encontrei outra vila com o mesmo nome, mas em Vila Real, Trás-os-Montes.

3 comentários:

de Sá disse...

Essa última conheço, lá enxima shim shenhore...
Ás vezes vem-me a ideia de que cortámos com o passado abruptamente. Como se de repente as nossas procedências fossem outras e tivessemos tomado uma vacina urbana que nos modificou a consciência de maneira a esquecer toda a dureza que se viveu. Muitas vezes, demasiadas, é enorme o desajuste entre a cara que apresentamos e o interior com o qual temos que conviver e as memórias que tentamos sublimar

nobreka disse...

Eu vivo, constantemente, com o meu passado e, nestas coisas também, não me consigo desligar. Funciona como uma droga. Sinto saudades de tantas coisas. Tantas gentes que passaram e marcaram a minha vida. Sitios que significaram. O desajuste de que falas, tento, que não se note ou que eu não sinta tanto. Daí alhear-me, se calhar, da realidade nalgumas situações e querer ser criança e manter-me lá. Onde fui feliz.

nobreka disse...

quero rectificar o anterior post: .... daí alienar-me, blá blá blá até ao fim do post