quarta-feira, janeiro 26, 2005

Alarve





Um sorriso contínuo,
um esgar infantil,
Um lápis azul.
Azul alarve,
cor sorridente que
submerge no papel
infantil contente.

http://caracaterina.clarence.com/

http://www.poster.de/Miro-Joan/ Miro-Joan-Blu-II-4-3-...

terça-feira, janeiro 25, 2005

Lembram-se de Pratt e Bilal

Sinto saudades e lembro-me, tantas vezes, de alguns livros de Hugo Pratt e de Enki Bilal que nunca tive. São os meus autores predilectos. Não eram meus os livros, todavia, moraram comigo na mesma casa, durante anos. Hoje sinto falta de reler algumas estórias que, na altura, me entretiam e faziam-me viajar no tempo.

Sempre com um cariz aventureiro, Hugo Pratt escrevia de uma forma tão intensa e indubitavelmente descritiva que fazia com que eu me absorvesse ao ponto de me imaginar na pele de uma das personagens. Lembro-me de A Fábula de Veneza, onde Corto Maltese percorre a cidade em sete dias à procura de uma esmeralda mística chamada "clavicula de salomão". No mínimo, empolgante.

Outro livro:"Corto Maltese perde a memória por culpa de uma gaivota"
" As mulheres seriam maravilhosas se pudéssemos cair nos seus braços sem cair nas suas mãos."

"As mulheres de Corto"
Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré 'Parda Flora', em Buenos Aires.
- Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?
- Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre. em toda a parte
.

Nas estórias de Bilal, pelo contrário, fascinava-me o enredo e o ambiente de ficção cientifica que ele conseguia criar e transpôr nos seus textos. Era demasiado arrojado e moderno para a época. Estamos a falar de há 10/12 anos atrás, senão mais. Foi quando eu comecei a ter contactos com os seus livros. E os desenhos eram perfeitos. Já não me lembro quem desenhava. Pierre Christin. C´est ça.

Lembro-me de um livro "Les Phalanges de L´Order Noir". Uma viagem histórica desconcertante.
A resistência de um povo perante o terror de uma Ordem Eclesiástica de Anciãos.
" La Ville qui n´existait pas". Focava a luta de classes, engrendrado num ambiente de ficção científica. Aliás, todas as estórias e desenhos eram projectadas numa base de ficcção cientifica. Espectacular.

Claro que existem muitos mais e bons livros destes autores. Só tenho pena que sejam tão caros. Senão recomeçaria a lê-los. E até, quem sabe, comprar a obra completa.

Foi bom lembrar-me deles. Remonta uma fase da minha vida.

Tipos de Mãe

Estou a ler um livro que me foi aconselhado por um amigo psicólogo. Manual para nos Defendermos da Mãe de Gianni Monduzzi, psiquiatra de formação e autor. Procurei no google alguns artigos para saber mais sobre ele. E só consegui em italiano. O que é pena, porque não percebo patavina . Este livro menciona todo o tipo de Mãe que há neste mundo e dá algumas dicas, de como nos defendermos dela. Quem estiver interessado ou tiver curiosidade em saber que tipo de Mãe tem, aconselho a comprar o livro. Lembro-me de alguns tipos : a Mãe perua, a pavoa, a galinha, a psicoespecialista, a maníaco-depressiva, a chique, a vip, etc etc. Retirei um excerto de um artigo que saiu na Máxima e acrescento aqui o link:

Deste modo, para o verdadeiro “menino da mamã”, o processo de sedução acarreta angústia, uma vez que tem consciência de que os beijos dados às outras são sempre carícias roubadas à mãe. E, para ele, a mãe é a única mulher que presta: “De costume, não se casa enquanto a mãe é viva; se ela durar muito, arrisca-se a ficar solteirão perpétuo. Mais que de uma mulher precisa de alguém que lhe tire os nervos do bife e lhe descasque a fruta no prato, senão não a come”, escreve o autor italiano Gianni Monduzzi, psiquiatra de formação e autor do Manual para nos Defendermos da Mãe

Este é o tipo de mãe galinha.

Alfie e as mulheres

Apeteceu-me ir ao cinema. Porém, a hora da matiné não era muito propícia, dada a escolha de filmes que eu tinha pela frente. De todos, optei por uma comédia romântica, que me surpreendeu. Pensei que iria rir todo o filme. Pareceu-me ser um enredo leve e descontraído, e no entanto, achei-o bastante triste. O filme foca, essencialmente, relações fortuitas e curtas. Num ápice, se percebe que o protagonista fica sozinho, na medida em que ele personifica o verdadeiro don juan, o homem que deseja e conquista todas as mulheres e que as abandona, sem qualquer culpabilidade. Embora seja ambicioso, o que ele mais deseja é ter dinheiro suficiente para viver, gozar ao máximo os prazeres da vida e não ter de assumir responsabilidades.
Um irresistível londrino que acabou de se mudar para a sofisticada Manhattan. A personagem principal deste filme - uma espécie de ''Sex in the City'' em versão masculina - trabalha como motorista de limusines nas ruas da cidade e, sempre que pode, aproveita o conforto do banco de trás para seduzir as suas clientes mais solitárias.
O filme centra-se em cinco das suas conquistas amorosas: a namorada do seu melhor amigo, a mãe solteira que sonha com uma relação a sério, a mulher casada e infeliz, a louca e a fogosa executiva de meia-idade.
Apesar de as abandonar a todas, no final ele vai aprender algo com cada uma delas. Embora esteja rodeado de romance, quando percebe que é incapaz de amar, constata que, aos trinta e poucos anos, um pouco de amor e intimidade verdadeiros não lhe fariam mal...
Típico de alguns homens. Portanto, no campo das relações não há filme mais actual que caracterize este tema. Deveras esclarecedor e imediato para evidenciar o que se passa connosco. Antes de mais, enaltecemos a embalagem, depois o que julgamos ser o último recurso, a felicidade inesperada e repentina. É só isto que interessa. O que não é tão mau, se pensarmos em continuidade, mas o nosso egoísmo incomodativo sussurra-nos ao ouvido que há sempre mais.
Bom, ele fica sozinho. Vê-se forçado a alterar o seu modo de vida, e a tratar as mulheres doutra forma. Todas as relações tinham terminado. Numa delas queria voltar a vê-lo.
E o que é que ele tinha? O que é que ele construiu? Quem é que ele amou? Nada e ninguém. Tinha um emprego. Tinha uma casa modesta nos subúrbios de Nova Iorque. Perdeu os poucos amigos que tinha. “Quem semeia ventos , colhe tempestades”. Sim, é verdade. Será justo dizer: É inevitável lutarmos contra a nossa natureza e aprendermos a lidar com ela? Não sei, será?
Só sei que o filme vislumbrava ser uma comédia e tornou-se para mim, uma análise exaustiva e melancólica. Posso imaginar o que ele sentiu. Ficar sozinho e, no fundo, é o que nos assusta, a todos.
Curiosamente, não estava muita gente na sessão e ouviam-se gargalhadas histéricas e desapropriadas, face às questões importantes e subjacentes e, mais grave, que não foram interpretadas da mesma forma. Muitos dos gages alusivos no filme funcionam como uma homenagem à masculinidade incutida nos homens, ao longo dos tempos. Para mim, aquelas pessoas que acharam o filme hilariante, não souberam ler nas entrelinhas, o que revela pobreza de espirito.
Todos sabemos que existem mulheres como o Alfie, mas sabe bem dizer que é bem feito o que lhe aconteceu. Pois, não carece de ter pena de homens que actuam assim com as mulheres. Só merecem o fim que têm.


... do mesmo modo de que as mulheres têm medo de receber, os homens têm medo de dar. Dar de si aos outros significa arriscar-se a uma falha e desaprovação. " John Gray, autor de Homens são de Marte, mulheres são de Vênus.",


quarta-feira, janeiro 19, 2005

África

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Sonhei um dia
Com as tuas cores
Com o teu perfume
Com o teu sabor,
Provei-te e acaricio-te
Quero sempre mais e
devagar uso o teu gosto.
Sinto a tua falta mas,
se um dia me atrever
cedo à sedução
Que estremecia
aquele horizonte sem fim.
Era Agosto e estavas quente
ardias de contentamento.
E o meu corpo viciou-se em ti.
Ainda sonho

terça-feira, janeiro 18, 2005

Vó

Minha querida e doce avó. Como é bom existires. Como é bom teres sido o meu amparo. Como é bom, ainda hoje, contares-me tantas estórias, naquelas em que tu foste a maior protagonista. Como é bom sentir o teu cheiro quando te beijo na face. Tu que fazes jus e honras o dia mundial dos avós e para o qual, tens sentido. Em ti penso todos os dias, e nem sempre te telefono. Eu sei que te devia dizer que te amo e que te estou eternamente grata por teres olhado por mim todos estes anos. Não o faço, nem sei porquê. Mas não quero que te vás sem que saibas que só tu mereces as rosas que ainda não te ofereci, e os beijos e abraços que ainda te hei dar. Avó minha, como eu te adoro. Se há alguém no mundo que me faça chorar de alegria, és tu.
Tu que tens sentido as amarguras da vida e, no entanto, afastas as lágrimas com o braço e marchas em direcção ao proximo desafio. Minha doce avó, obrigada por seres quem és!
Um beijo no coração

Viva o amor

Em resposta ao teu comentário sobre este texto, digo que é recente, não do despertar da juventude.
Realmente a juventude é relativa. Pode ser-se jovem aos oitenta. Acredita porque já vi.
Quanto ao que digo hoje disso é exactamente o mesmo.
Beijos

sexta-feira, janeiro 14, 2005

a propósito de mudança

... sentimos medo dela. É um sentimento que, à priori, tem uma conotação positiva, e no entanto, não passa de um sonho que, para a maioria das pessoas, apavora e não chega a ser. O que vem a seguir, soa a diferente. Assusta. E perdemos a capacidade de controlar as consequências dessa mudança. Talvez não conte muito mudarmos algo no nosso dia-a-dia. E digamos que não importa muito se se falar no plural, é capaz de ser tornar mais fácil, quando não nos referimos a nós proprios. Suponhamos que se muda de sitio um objecto na nossa casa, um móvel que nos parece ficar melhor no canto da sala, ou uma jarra que fica melhor no meio da mesa. Enfim. Tretas. É só mais uma tentativa de relativizar o que, de facto, é importante mudarmos, ou então uma defesa para nos revelarmos capazes disso. É algo a que nos habituámos a falar com Amigos... Está na moda? Falta de tema? Não. Penso que não. Recorremos a uma série de auxilios para nos soar que, a avaliação que possam fazer de nós, seja mais branda... E se o fazemos! Fazemos outras coisas, como as chamadas campanhas de promoção aos outros e achamos que cometemos a boa acção do dia, quando para nós é tão dificil.
Mudo...mudas...muda!!! porque é tão condicionante e conclusivo numa sociedade ocidental a importância de nos aceitarmos e de nos aceitarem. Sem que nos rotulem. Nunca acontece isso, apesar de nos lembrarmos, a toda a hora, que nunca faremos a diferença. O historial de vida de cada um é sempre decisivo na interacção com os outros. O que nos atrai, o que nos afasta... Rótulo sem regresso. Ora, pensando num país de terceiro mundial estes aspectos têm a sua relatividade propria. As guerras, há que acabar com elas. A cobiça e a maldade, o mesmo. Mas a única e importante mudança que estes povos pedem é que não os deixem morrer à fome e à sede. Temos o condão de pensarmos e sentirmos pena de povos que sofrem com as guerras, com as catastrofes naturais, com as politicas adversas, mas, na realidade só conseguimos sentir e reparar no que está ao nosso lado. Alguém que não muda, alguém que não se torna util à sociedade, alguém que nos é (in) diferente, alguém que não faz parte da nossa cadeia social, alguém que nos é incompativel ou não nos é empático. Afinal de contas, a vida não é mais do que uma cordialidade inevitável e imposta. Há dezenas, senão, centenas de publicidade que nos entra, todos os dias, no computador, na televisão, no rádio, a fim de promover o amor com o próximo, com ditos e frases de autores conhecidos, como Dalai Lama. Isto não será uma moda? Ou melhor, que não seja uma moda, não será hipocrisia para nos sentirmos uteis e dizermos que até gostamos deles, como eles são, quando no fundo, pensamos o contrário.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Ma(e) terna

Nasceu, mais, uma criança. Gesto singular, instintivo. E(terno). Alice cresceu. E a ligação com a sua mãe sempre fora desequilibrada, difícil ou nunca fora, sequer, uma relação. O exemplo de maternal que sempre teve, assim como a sua própria formação, foi sua avó. Para ela, era a imagem reflectiva de o que é ser mãe. Sentir uma familia. Referência de carinho. Prova de ternura, necessidade, e de significado. Não se lembra, se foi amamentada. Também não é importante, ou será? Recorda-se, ou melhor sempre sentiu, que sua mãe lhe tirara a chucha muito cedo, por já estar, mais que na hora de acabar com tanto chuchar. Poucas ou nenhumas lembranças tem, no entanto, sente que sua memória fora vedada para receber tais fragmentos de imagens.
Poder contemplar e perceber o que é sentir o cheiro de sua mãe, o calor do seu colo, as palavras carinhosas que se dissiparam entre gerações. Nunca lhe ensinaram, se calhar. Hoje pensa que: a ausência e a presença, não tiverem significado. Por tantas razões, nunca escrevera sobre sua mãe. Nunca conseguiu agarrar referências, ou então, inventava-as, para poder ter meras palavras e imagens que, outrora, ficaram na ignorância.
Elas passaram sempre por cima de tudo o que a fazia feliz.

Numa qualquer viela - parte III

Distraio-me com as pessoas, com a confusão da rua, com o colorido das montras, com os vendedores de castanha assada.
Em frente, há uma taberna. Não são muito diferentes as imagens, e o mundo é o do costume. Um velho que, inexplicavelmente, está sempre a ler o mesmo livro empoeirado. A D. Júlia, dona do café, que parece viver atrás daquele balcãozinho afogado em jornais e revistas. Os artolas do grupo de fados que têm sempre uma guitarra portuguesa debaixo do braço, e uns copos de vinho tinto em cima da mesa. De quando em quando, trauteiam a despique.
O Sr. Artur, esse, já se confunde com a própria taberna, com os cartazes que anunciam os pratinhos de moelas, de caracóis, os espelhos baços e o ambiente que é tão peculiar.
O cauteleiro, com seu ar grosseiro e curtido pelo sol, tenta vender em alarido desbragado os seus bilhetes pela rua abaixo, para ganhar algum.
D. Amélia que, diariamente, se empoleira à janela para dar conta de quem passa, espreita o cauteleiro. Este, sempre lhe tenta vender um bilhete. Enquanto a garotada joga ao berlinde, a vizinha de baixo arrelia-se. Aqueles garotos ocupam o seu vão de escadas para trocar os cromos que não têm, ou então para chalacear com as meninas bonitas que por ali desfilam.

As ruelas mais estreitas denunciam imundície de noites anteriores. Borracheiras consumadas, regurgitos sentidos e dignos entre desamores e paixões de uma noite.

E ocorre mais um dia. Nesta ruela que, à primeira vista, parece frívola. Numa viela qualquer a subir ao Bairro Alto. Enfeitada de uma essência particularmente espontânea e característica. Puramente genuína e bairrista.
Algumas raparigas de índole duvidosa chegam da labuta. De mais uma noite dolorosa e marcada pela espécie de afazeres a que se dispuserem. De há muito tempo a esta parte que não sabem fazer mais nada. Descendem de cognomes desconceituados que as perseguem uma vida inteira sem prazer e sem destino.
À deriva, elas governam a sua alma. Ao Amor, não lhe conhecem o sabor. São aquelas, as rameiras, apelidos de tão mau gosto e sem consciência. Bradados por gentes sem escrúpulos.
A vida nunca, ou muito raramente, segue o curso que nós lhe queremos dar.

Numa qualquer viela - parte II

Ao contrário do que, seguidamente, presenciei.
Numa das paredes do café, existe um espelho a todo o comprimento. Ao levantar os olhos do jornal, apercebo-me que um casal se entreolha. Nada são um ao outro. Cada um em sua mesa. Tornam-se cúmplices de sorrisos e olhares atrevidos. Desenvolve-se uma linguagem de sedução que me fascina. Prudentes meneios geram uma atmosfera de desejo, uma tentação em pecar que jamais pensaria assistir. A voluptuosa libertinagem encanta-os e delicia-os a avançar naquele jogo lascivo. De forma arrojada transmitem autênticos sinais de acasalamento. Afoitamente, ela mordisca os lábios, e num simples trocar de pernas fá-lo, discretamente, salivar. Paira uma aura de excitação tal que me eriça arrebatadamente. Desfrutava. Sentia-me à mercê do incontrolável.
Ela deseja ser desejada. Impulsivamente, levanta-se e dirigi-se à toilette. Possivelmente, para retocar a maquilhagem. De soslaio, encara-o como se o convidasse a acompanhá-la. Tentador. Não? Ele nem tenta disfarçar e segue-a. Só me lembro de olhar para o relógio e ter passado meia hora. Continuam esgueirados, sem dar notícias. A curiosidade mata.

Faz-me pensar em escapar à rotina. Algo de desavindo se passa ali. Especularia que: São lugares de rompante que passam a correr na nossa vida. Toca e foge: "Em geral, os cenários pouca importância, têm". Calham, e às vezes não calham mal. Tinha de ser ali: "Num café banal, onde tudo pode acontecer ...” Fortuitamente, um casal estranho sente atracção. Nenhum deles faz ideia de quem é. É irrelevante. Interessa só que os sentidos estejam apurados. Não importa quem repara. A luxúria, que ambos querem partilhar, sobeja.
A tarde segue calma o seu curso. Os cadernos debaixo do braço de alguns jovens que passam na rua e regressam da escola, mal se conseguem segurar. Nem disfarçam a vontade em pegar neles. Parecem alheios em querer assimilar o que a escola lhes tem para oferecer. Devagar, particularmente devagar, seguem pela rua afora, rindo uns com os outros, num ritmo que, sem darem por isso, se distinguem dos demais.

Numa qualquer viela - parte I

Atravesso a rua. Há um cinema com uma livraria debaixo do chão. É ali, no meio dos livros, que gosto de estar. Fazem-me tanta falta, hoje, todos os livros que não li. Custa-me menos escrever. Tardo em saber. Importo-me, sim. Sei que tenho para dar. Marco ali encontros. Faz-me bem sorrir entre eles. Ao lado há um mercado. Passeio no meio das vendedeiras de flores. Elas metem-se comigo e eu faço as minhas rábulas. E com elas me perco.

Há um café, onde costumo ir. Nunca sei o nome. Ao fundo, vejo uma mesa vaga. Peço um café. Compro o jornal. Leio as gordas. Encarece a qualidade de vida. As guerras propagam-se como vírus. Os transportes, a electricidade, a alimentação, o telefone, a gasolina, os táxis. Enfim, num país que atravessa a pior fase económica. Respira-se desalento e frustração. Um autêntico desamparo colectivo. O desemprego tende a crescer. A fome e a miséria. Com a entrada do novo século descobre-se o que foi encoberto durante tantos anos, a prática desmesurada da Pedofilia. Ecos de tantos anos recalcados espalha-se em toda a Europa. Palestina e Israel estão, novamente, ao rubro. Assassinaram Ahmed Yassin. Quando é que o mundo se vai entender? Não pode haver só maldade no mundo, não pode. Desprazer aos meus olhos.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Mesmice

Entrou em casa. Será que se enganou. Não. A casa estava fria e escura. Começara a não se reconhecer nela. Os mesmos móveis, a mesma cama, o mesmo sofá, as mesmas cadeiras. Nos mesmo sitios, nos mesmos recantos. As vivências estavam gastas. AS cores e os cheiros, tambem.
Sentia a falta de esconderijos que, outrora, a equlibravam. Esvaído, cansado. O refugio que permaneceu esquecido. O tempo parara. Nada mudara. Nada se passava ali. Já nem sequer as palavras habitavam aquele espaço sem vida. Sentia-o como se já não fosse dela, o mesmo vazio imensurável, por identificar.
O ter de lá voltar e vê-lo todas as noites, tornara-se enfadonho e desinteressante. Até o sono era igual, e o mesmo silêncio. As paredes aguentavam a estrutura, onde a sua única interlocutora era a infelicidade com que ela mirava o seu lar, o único e o último canto que mantera estes anos.

De manhã, Rute sabe que o Sol vai morrer

Rute sabe que o Sol vai morrer. Mas, não se assusta. Sabe que, a partir das dezoito horas ele morre. Escurece, mas não se importa. Ele até pode morrer antes, se quiser. Há muito tempo que a sua vida é uma sucessão de expectativas. Nenhuma delas realizada. Por isso espera ver o sol morrer.

Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente, pediu para uma bailarina nascer no lugar da lua. Mas não nasceu. Nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua. Depois, se nascesse, não seria uma bailarina. Mas uma deusa. E riu.

Não que fosse impossível uma deusa nascer no lugar da lua. Mas porque as deusas não nascem mais. Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram. Estão lá, no fundo de um poema, presas às barbas e aos cabelos de Neptuno. Camões que o diga. Ele que teceu os raios de luar no rosto de Neptuno e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.

Saber

Em tempos, tive um livro de poesia de Eugénio de Andrade. Nos tempos de escola, na época em que estudei não se lia poesia deste autor. Emprestei-o a uma colega, penso eu, e fiquei sem ele.
Aqui vai um link sobre Eugénio de Andrade, para quem esteja interessado.

Kisses

Adeus

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade



segunda-feira, dezembro 13, 2004

... tanta falta (des)prendida

Hoje, consciencializo. Nunca estiveste. Ou eu. Nunca entendi muito bem, o estarmos e o não estarmos. O que tu querias. O que eu queria. Criei uma imagem de ti, à minha maneira. Nunca falámos sobre o tema, ou outro que fosse. Nunca nenhum assunto era oportuno, importante ou digno para ser discutido. Foste sempre aquilo que eu nunca quis que fosses. Ou eu sempre te desejei diferente. E tens pairado como uma sombra. Como que, os meus passos passassem a ser censurados. Não me consigo livrar de ti ou do que tu representavas. Apareces sempre nas piores alturas. Denuncias-te quando me decido a fazer algo. E continuas com o teu risinho sarcástico, dizendo-me o que nunca conseguiste, quando me tinhas. "falta-te coragem"! A vida para mim, sempre me soube a uma efémera tarde de verão que passa e vem. Todos os anos, assim como, uma tarde chuvosa. Sem que eu dê conta, as flores continuam a nascer e a morrer. As marés continuam a subir e a descer. As crianças continuam a crescer e a envelhecer. O tempo continua a não parar. Sei apenas o que não quero. Nem isso, com certeza, sabias de mim. Teres-me-à conhecido? Ter-te-ei interessado? As palavras sempre te assustaram. Terei sido, apenas, um capítulo maior e doloroso do teu romance, provavelmente. Pergunto: Quem sou eu? O que fiz? O que construi? Estou em falta para com o universo: Da trivialidade à importância que é ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Ter a capacidade de me reencontrar. Ver-me e conhecer-me, sempre foi uma trivialidade para ti. Uma parvoíce. Ironizavas dizendo, que isso, era coisa de intelectuais. Nunca percebeste que a minha e a tua evolução teriam de passar por este percurso. A aprendizagem de nós mesmos, torna-se o nosso reflexo na realização com os outros. Mea culpa, apesar de sentir necessário este percurso, nunca o soube transmitir aos outros.