Ao contrário do que, seguidamente, presenciei.
Numa das paredes do café, existe um espelho a todo o comprimento. Ao levantar os olhos do jornal, apercebo-me que um casal se entreolha. Nada são um ao outro. Cada um em sua mesa. Tornam-se cúmplices de sorrisos e olhares atrevidos. Desenvolve-se uma linguagem de sedução que me fascina. Prudentes meneios geram uma atmosfera de desejo, uma tentação em pecar que jamais pensaria assistir. A voluptuosa libertinagem encanta-os e delicia-os a avançar naquele jogo lascivo. De forma arrojada transmitem autênticos sinais de acasalamento. Afoitamente, ela mordisca os lábios, e num simples trocar de pernas fá-lo, discretamente, salivar. Paira uma aura de excitação tal que me eriça arrebatadamente. Desfrutava. Sentia-me à mercê do incontrolável.
Ela deseja ser desejada. Impulsivamente, levanta-se e dirigi-se à toilette. Possivelmente, para retocar a maquilhagem. De soslaio, encara-o como se o convidasse a acompanhá-la. Tentador. Não? Ele nem tenta disfarçar e segue-a. Só me lembro de olhar para o relógio e ter passado meia hora. Continuam esgueirados, sem dar notícias. A curiosidade mata.
Faz-me pensar em escapar à rotina. Algo de desavindo se passa ali. Especularia que: São lugares de rompante que passam a correr na nossa vida. Toca e foge: "Em geral, os cenários pouca importância, têm". Calham, e às vezes não calham mal. Tinha de ser ali: "Num café banal, onde tudo pode acontecer ...” Fortuitamente, um casal estranho sente atracção. Nenhum deles faz ideia de quem é. É irrelevante. Interessa só que os sentidos estejam apurados. Não importa quem repara. A luxúria, que ambos querem partilhar, sobeja.
A tarde segue calma o seu curso. Os cadernos debaixo do braço de alguns jovens que passam na rua e regressam da escola, mal se conseguem segurar. Nem disfarçam a vontade em pegar neles. Parecem alheios em querer assimilar o que a escola lhes tem para oferecer. Devagar, particularmente devagar, seguem pela rua afora, rindo uns com os outros, num ritmo que, sem darem por isso, se distinguem dos demais.
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