terça-feira, dezembro 21, 2004

Numa qualquer viela - parte III

Distraio-me com as pessoas, com a confusão da rua, com o colorido das montras, com os vendedores de castanha assada.
Em frente, há uma taberna. Não são muito diferentes as imagens, e o mundo é o do costume. Um velho que, inexplicavelmente, está sempre a ler o mesmo livro empoeirado. A D. Júlia, dona do café, que parece viver atrás daquele balcãozinho afogado em jornais e revistas. Os artolas do grupo de fados que têm sempre uma guitarra portuguesa debaixo do braço, e uns copos de vinho tinto em cima da mesa. De quando em quando, trauteiam a despique.
O Sr. Artur, esse, já se confunde com a própria taberna, com os cartazes que anunciam os pratinhos de moelas, de caracóis, os espelhos baços e o ambiente que é tão peculiar.
O cauteleiro, com seu ar grosseiro e curtido pelo sol, tenta vender em alarido desbragado os seus bilhetes pela rua abaixo, para ganhar algum.
D. Amélia que, diariamente, se empoleira à janela para dar conta de quem passa, espreita o cauteleiro. Este, sempre lhe tenta vender um bilhete. Enquanto a garotada joga ao berlinde, a vizinha de baixo arrelia-se. Aqueles garotos ocupam o seu vão de escadas para trocar os cromos que não têm, ou então para chalacear com as meninas bonitas que por ali desfilam.

As ruelas mais estreitas denunciam imundície de noites anteriores. Borracheiras consumadas, regurgitos sentidos e dignos entre desamores e paixões de uma noite.

E ocorre mais um dia. Nesta ruela que, à primeira vista, parece frívola. Numa viela qualquer a subir ao Bairro Alto. Enfeitada de uma essência particularmente espontânea e característica. Puramente genuína e bairrista.
Algumas raparigas de índole duvidosa chegam da labuta. De mais uma noite dolorosa e marcada pela espécie de afazeres a que se dispuserem. De há muito tempo a esta parte que não sabem fazer mais nada. Descendem de cognomes desconceituados que as perseguem uma vida inteira sem prazer e sem destino.
À deriva, elas governam a sua alma. Ao Amor, não lhe conhecem o sabor. São aquelas, as rameiras, apelidos de tão mau gosto e sem consciência. Bradados por gentes sem escrúpulos.
A vida nunca, ou muito raramente, segue o curso que nós lhe queremos dar.

Sem comentários: