terça-feira, dezembro 14, 2004

De manhã, Rute sabe que o Sol vai morrer

Rute sabe que o Sol vai morrer. Mas, não se assusta. Sabe que, a partir das dezoito horas ele morre. Escurece, mas não se importa. Ele até pode morrer antes, se quiser. Há muito tempo que a sua vida é uma sucessão de expectativas. Nenhuma delas realizada. Por isso espera ver o sol morrer.

Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente, pediu para uma bailarina nascer no lugar da lua. Mas não nasceu. Nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua. Depois, se nascesse, não seria uma bailarina. Mas uma deusa. E riu.

Não que fosse impossível uma deusa nascer no lugar da lua. Mas porque as deusas não nascem mais. Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram. Estão lá, no fundo de um poema, presas às barbas e aos cabelos de Neptuno. Camões que o diga. Ele que teceu os raios de luar no rosto de Neptuno e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.

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