Época de provações, de penitência, de jejum, de contenções, de todo o tipo de abstinência, de não se poder comer isto e aqueloutro, mas também de meditação. Período em que a Igreja Católica relembra os 40 dias de Jesus Cristo no deserto. Se bem, que na cultura ocidental tem sido mais abrandada esta tradição. Há muita gente que, ainda hoje, não come carne na santa sexta-feira.
Nem a propósito, no meu último post, nem era próprio, nesta época, fingir-se os orgasmos. Impõe-se, - passe-se a expressão - deixar de fazer algo que se considerasse prazeroso.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Quaresma
Ao fazer uma busca pela palavra Quaresma tropecei num link sobre um filme de José Álvaro Morais.
Nem a propósito, no meu último post, nem era próprio, nesta época, fingir-se os orgasmos. Impõe-se, - passe-se a expressão - deixar de fazer algo que se considerasse prazeroso.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Quaresma
Ao fazer uma busca pela palavra Quaresma tropecei num link sobre um filme de José Álvaro Morais.
«(...) É ainda à volta da grande burguesia rural portuguesa (ou melhor, dos restos dela, ou seja, do estatuto, que sobretudo a enclausura) que o filme passa-se - na zona da Covilhã, Serra da Estrela, relativamente perto da terra natal do realizador, Coimbra, no centro-norte de Portugal.
Em "Quaresma" há menos sol, há mais gravidade, a "terra" faz-se sentir de outra maneira mais pesada, o próprio ar e o próprio céu parecem desaparecer numa mescla de tons cinzentos. Mantém-se o desejo de fuga, mas agora parece que a fuga (real ou ilusória, conseguida ou falhada) só se pode fazer continuando para norte - para a Dinamarca e para as praias austeras do mar do Norte. Não será forçar muito a nota dizer que "Quaresma" é como um "road movie" em circuito fechado, ou um "road movie" que anseia pela estrada que o confirme.
Todas as personagens que o filme segue - que são as personagens que ainda guardam um desejo de movimento - seguem as vias das suas fugas (im)possíveis e imaginadas.
Aí surge, em especial, a personagem de Beatriz Batarda, cuja semi-loucura atesta ao mesmo tempo uma hipótese de fuga e a sua impossibilidade: como uma "enfant sauvage", o seu desejo de liberdade esbarra nas fronteiras do seu espírito (e de resto, não estamos seguros de que a sua perturbação não tenha raiz, justamente, na sua clausura). É que as estradas de "Quaresma" têm todas um fim: ou acabam no alto da Serra da Estrela ou nas margens do mar do Norte.
A grande pergunta de todos os filmes de José Álvaro de Morais, mantém-se: que país é este, que agarra as pessoas com tanta força ao mesmo tempo que lhes dá vontade de fugir?»
Luís Miguel Oliveira, in dossier promocional para Festival de Cannes 2003
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