Sem sono. Saio de casa em direcção ao café do Sr. Samuel.
Peço um ballantines. Procuro desesperada um papel e uma caneta.
Afasto o copo para um canto da mesa. E tiro de minha mala os apetrechos necessários, mas no meio de tanta confusão, um costume muito frequente, em nós, mulheres, lá consigo encontrá-los. E escrevo o que me vem à cabeça.
Que rosto terão as palavras, quando os ventos sopram em direcção contrária …
Proteger o peito de rosas, banhar os lábios de paixão, atenuar forças contrárias, mas não basta. Nunca bastou. Será necessário construir de novo os acasos que me cercam, enchendo as noites. Perdi-os.
E a pele estica-se ao máximo e envelhece após qualquer verão crespo.
E se fosse inverno, jorraria dela a mesma viscosidade clandestina, como de quem habita um espaço que não lhe pertence.
E ofender o céu e a lua, seria distanciar-me cada vez mais de mim.
Qualquer atitude definitiva mentir-me-á. Porém, se continuo quieta á semelhança de uma rocha, acabo por impelir a energia no meu coração. Não existe jardim que me cure do travo da revolta. Parecerei uma condenada, sem nome nem sexo, apenas um pedaço de entusiasmo liquido, prestes a ebulir.
Farta de ali estar, rasguei o pedaço escrito da toalha de mesa e guardei-o num bolso.
Pedi a conta. Olhei o relógio. Já era meia-noite e meia. Saí da tasca e caminhei ao acaso, pelas ruas estreitas, confundida nas sombras, escutando à medida que passava pelas portas dos bares, sons variados de batidas quentes. Avançava sem sono. Já eram, mais que, horas de ir para casa.
"A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais..." - Sofia de Mello Breyner Andresen,
quarta-feira, janeiro 18, 2006
terça-feira, janeiro 10, 2006
To Grace
Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
um do outro havemos de nos lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente.
Cada vez de forma diferente,
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para se viver a vida:
Uma é acreditar que não existe milagres.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
(1879-1955)
Mas, enquanto houver amizade,
faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
um do outro havemos de nos lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente.
Cada vez de forma diferente,
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para se viver a vida:
Uma é acreditar que não existe milagres.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
(1879-1955)
A criança que fui chora na estrada
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando Pessoa
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Another year and all the same
A propósito de "dreams came true". E os votos que se desejam para os outros. E as passas que se devem comer. E a cor de cuecas que se deve usar. E os beijos tradicionais que se devem, partilhar. As mensagens que se devem trocar e, tudo, o que é intrínseco à data. Para alguns é um prazer. Para outros, não passa de uma simples obrigação, de uma simples "cortesia”. E só de pensar nisso, faz pena. Não importa, se quem sente prazer, tiver de fazer esse ritual, todos os anos. Vestir as cuecas, comer as passas, saltar de uma cadeira aquando das badaladas, querer um bom ano para os outros. É sinal que as pessoas se importam. Não tem é de ser desta forma: é politicamente correcto conferir esse bem-estar aos outros. Mas, até que ponto pode ir esta hipocrisia, quando essa “politiquice” é fingida. É preferível a diferença, ou a arrogância, de que tantos são apelidados, quando não aprovam o que lhes é desagradável nalguma situação. Não acham que a hipocrisia tem vencido o pódio nas nossas praias? Será que desejamos, mesmo, a felicidade aos outros? Não será permissível a inveja articulada com a hipocrisia, corromper a nossa essência. Ter-se-á, a hipocrisia, tornado uma característica dos humanos fenecendo de um defeito “socialmente genético”. É assustador. No mínimo.
Neste fim-de-semana vi, finalmente, o Dogville. De longe, uma das melhores peças que já vi sobre relações humanas. É uma homenagem, muito bem produzida, às características humanas, ao relacionamento e à grande aptidão que o Homem tem em julgar o próximo. Ora, o julgamento é de longe a arma e a marca mais poderosa, a meu ver, de como somos humanos. Viver em comunidade. É difícil, claro que é. E com todo este poder que fomos desenvolvendo ao longo da vida, vem ao de cima, tudo o que temos de pior. O orgulho, a inveja, a insegurança, a luxúria, o ódio, a vingança. Obviamente, que há mais. E se pensarmos um pouco, todos os pedaços piores lutam apenas, contra um, que nem sempre vence. O Amor. O Amor Universal. O amor sob todas as suas formas. Não deveria ser ele a vencer?
Neste fim-de-semana vi, finalmente, o Dogville. De longe, uma das melhores peças que já vi sobre relações humanas. É uma homenagem, muito bem produzida, às características humanas, ao relacionamento e à grande aptidão que o Homem tem em julgar o próximo. Ora, o julgamento é de longe a arma e a marca mais poderosa, a meu ver, de como somos humanos. Viver em comunidade. É difícil, claro que é. E com todo este poder que fomos desenvolvendo ao longo da vida, vem ao de cima, tudo o que temos de pior. O orgulho, a inveja, a insegurança, a luxúria, o ódio, a vingança. Obviamente, que há mais. E se pensarmos um pouco, todos os pedaços piores lutam apenas, contra um, que nem sempre vence. O Amor. O Amor Universal. O amor sob todas as suas formas. Não deveria ser ele a vencer?
É certo que é um contra muitos. Mas se acreditarmos veemente que “ele” tem mais força do que todos os outros. Deveria vencer. Afinal o Amor não vence tudo. Parece-me, de repente, uma utopia. Deus foi crucificado porque tentou comprovar que existe Amor. “Tantos eram contra ele”. E acabou crucificado, perdeu a sua credibilidade e ainda foi gozado. Portanto, quando se diz que o Amor vence tudo. Não é bem assim. Afinal, de que andamos a fugir, se necessitamos de nos defender com armas tão decadentes e tão pútridas.
E mais um ano promete vincar todas essas opções, senão desenvolvidas, preocupar-nos-emos em desenvolvê-las.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
a impetuosidade do Natal
Pensando nas mensagens de Natal largadas pelos blogs, em celebração à quadra. Achei melhor não repetir.
Naquelas mensagens foleiras que se trocam pelos telemóveis sem conta. Isso fiz. Acabo por ser uma telemóvel-dependente. E no dinheirão que flui sem parar, pelos vistos também aderi.
Contudo, já pensaram que, sem nos darmos conta, contribuimos para a institucionalização desta comercialização. Não concordam?
Ontem, ouvia na rádio a exorbitância de numerário que se levantou nos multibancos só no fim de semana passado. Mais de 120 mil euros. E isto, só nos multibancos. Imagino nas lojas e afins. Mais outro tanto, ou ainda mais.
Desde o tempo dos reis Magos que isto acontece. Já que foram eles os causadores destas oferendas.
Portanto, além da impetuosidade deste espirito, gasta-se desmesuradamente e por obrigação. Oferece-se qq coisa a toda a gente. Antigamente, oferecia-se só aos mais próximos. A minha avó conta-se isso muitas vezes.
Deixo aqui a minha mensagem de Natal. Sejam felizes ainda que não seja Natal. E não é necessário oferecer-se sempre qq coisa p nos sentirmos natalicios. Um bom dia ou um olá contribui sempre para a felicidade do próximo.
terça-feira, dezembro 13, 2005
Uma campanha alegre
Sou sincera, leio pouco. Deveria ler muito mais.
http://www.releituras.com/equeiroz_menu.asp
A informação é tudo e é importante. Devo confessar que me seria muito mais fácil conhecer e lidar com outro tipo de pessoas. Aprofundar os meus conhecimentos e atingir outros e diferentes horizontes. A capacidade e o potencial está em nós, sempre. O mais dificil é exercitar e preparar o "campo" para podermos avançar e progredir.
Pouco tem a ver com o que vou comentar, mas há coisas curiosas. Nem a propósito, ontem li um texto que não conhecia do Eça de Queirós. A campanha alegre. Geração de 1870. Despertou-me a atenção. Li e acho que tem um pouco a ver com a campanha adaptada aos nossos tempos. Senão pensem em Manuel alegre. Não se queria candidatar e acabou por fazê-lo. Talvez por força maior, por amor à camisola, por uma causa... sei lá.
Queria marcar a sua posição. Acabou por ter de ser candidato, pela exigência de grande parte da população socialista ou afecta.
O texto do Eça "Uma campanha alegre" só vem revelar a peixeirada que se adapta e coaduna aos nossos tempos. Tenho pena de não ter encontrado esse texto nalgum site. Deixa-lo-ia para relerem ou para quem não conhece. Mas não encontrei.
http://www.releituras.com/equeiroz_menu.asp
segunda-feira, dezembro 12, 2005

Nunca se fala das mãos.
Elas dizem tanto e tão pouco.
Elas, falam de nós.
Elas também, fazem por nós.
Elas traçam percursos que só, aos entendidos, deixam ler.
Revestidas por pele, nervos e veias elas exprimem a nossa personalidade.
confere-lhes o poder delicado de tocar, cheirar, sentir e beber.
São felizes, não sentem culpa.
Falam, simplesmente pelo toque.
descobrem, pelo cheiro.
Abrem portas definhadas de vidas sofridas, calejadas pelo tempo.
escritas amargas de dores inesqueciveis. Algumas irreveláveis.
Outras sabem esquartejar, matar e banir.
nunca aprenderam a pintar e a esculpir.
Mas elas falam de nós.
terça-feira, dezembro 06, 2005
"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá a falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa
segunda-feira, novembro 28, 2005
Vento discorde, circundante,
Traz, de novo, contigo o poder de uma doce metamorfose
Entre pétalas e ramagens,
anuncias rendez-vous esbatido em cores e cheiros.
Assemelhas-te a, ósculos que ao de leve tocam e marcam.
Em tempos, jorravas brisa constrangida, numa jocosidade impetuosa,
Recordo um rio a fluir, maresia, o mar profundo …
torrentes espalhadas figurantes, entrelaçavam-se em vagas
dilaceradas por qualquer embarcação.
No entanto, mimavas a imensidão pura e selvática,
Sabia o que fazer... descaradamente me alumiavas.
Continuas a ser aquele beijo que nunca mais vi,
Para mim eras mar e vento,
Eras a natureza em bruto,
A nostalgia lembra-te belo e ténue
Época houve, em que me perdia em ti,
Uniam-se à minha chegada e,
Eras uma doçura, quase incompreensível ao sabor.
Gosto, toque, doce ainda te tenho na boca.
Hoje belicosamente só me sabes a sal,
tormentas interiores abandonadas em saliva,
sobrevivem às reminiscências …
Desejo. Visualizo-te. Ao longe. És degrau superior.
Porque me enjeitas.
Longos foram os dias q te bradei, sem resposta
Desafiavas-me, não te reconheço
Pouco te estimei e, foste desenvolvendo espaço vazio.
Vazio, Vão. Oco. Lembranças incompletas,
Palavras rasuradas, inconsequentes
Ofensas destronadas, gestos arrojados.
Só te recordo em bruto.
Ainda eras um molde por descortinar que,
Converti num todo, e basilar, vivias.
Reagias ao olhar, ao toque, ao coração,
E ao teu perfume, criámos a melodia certa
Meiguices dançantes, beijos memoráveis
Na tua música engrandeci.
Recordo-te (em) bruto.
És beijo que não esqueci.
Traz, de novo, contigo o poder de uma doce metamorfose
Entre pétalas e ramagens,
anuncias rendez-vous esbatido em cores e cheiros.
Assemelhas-te a, ósculos que ao de leve tocam e marcam.
Em tempos, jorravas brisa constrangida, numa jocosidade impetuosa,
Recordo um rio a fluir, maresia, o mar profundo …
torrentes espalhadas figurantes, entrelaçavam-se em vagas
dilaceradas por qualquer embarcação.
No entanto, mimavas a imensidão pura e selvática,
Sabia o que fazer... descaradamente me alumiavas.
Continuas a ser aquele beijo que nunca mais vi,
Para mim eras mar e vento,
Eras a natureza em bruto,
A nostalgia lembra-te belo e ténue
Época houve, em que me perdia em ti,
Uniam-se à minha chegada e,
Eras uma doçura, quase incompreensível ao sabor.
Gosto, toque, doce ainda te tenho na boca.
Hoje belicosamente só me sabes a sal,
tormentas interiores abandonadas em saliva,
sobrevivem às reminiscências …
Desejo. Visualizo-te. Ao longe. És degrau superior.
Porque me enjeitas.
Longos foram os dias q te bradei, sem resposta
Desafiavas-me, não te reconheço
Pouco te estimei e, foste desenvolvendo espaço vazio.
Vazio, Vão. Oco. Lembranças incompletas,
Palavras rasuradas, inconsequentes
Ofensas destronadas, gestos arrojados.
Só te recordo em bruto.
Ainda eras um molde por descortinar que,
Converti num todo, e basilar, vivias.
Reagias ao olhar, ao toque, ao coração,
E ao teu perfume, criámos a melodia certa
Meiguices dançantes, beijos memoráveis
Na tua música engrandeci.
Recordo-te (em) bruto.
És beijo que não esqueci.
quarta-feira, outubro 26, 2005
Respiro o teu corpo
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Eugénio de Andrade
terça-feira, outubro 25, 2005
África (doce viciante)
África
Sonhei um dia
Com as tuas cores
Com o teu perfume
Com o teu sabor,
Provei-te e acaricio-te
Quero sempre mais e
devagar uso o teu gosto.
Sinto a tua falta mas,
se um dia me atrever
cedo à sedução
Que estremecia
naquele horizonte sem fim.
Era Agosto e estava quente
ardia de contentamento.
E o meu corpo viciou-se em ti.
Ainda sonho.
Sonhei um dia
Com as tuas cores
Com o teu perfume
Com o teu sabor,
Provei-te e acaricio-te
Quero sempre mais e
devagar uso o teu gosto.
Sinto a tua falta mas,
se um dia me atrever
cedo à sedução
Que estremecia
naquele horizonte sem fim.
Era Agosto e estava quente
ardia de contentamento.
E o meu corpo viciou-se em ti.
Ainda sonho.
o tempo do Rossio
Já não se passa pelo Rossio.
pecúlio ilustre de existências calejadas,
paredes frias entranhadas de estorias dificeis,
e azedumes de uma ou outra mulher,
escada rolante ou tapete que, corpos infindáveis carregava,
resistentes ou calosos, anafados ou escanzelados,
para cima e para baixo, eram as regras de outrora,
foram do seu tempo, tempo azedo.
por onde se passava,
o relógio lá falava e foi-se gastando o tempo.
O moço, cauteleiro ou jornaleiro
já não tem onde vender.
E os habitués, onde correr.
Aglomerações se viam, sem conta
ancoradouro étnico, cenários mistos
peles combinadas, cabelos multicores,
já não têm porque dançar.
A trote se pavoneavam pelas redondezas,
culturais ou coloridas, de cinzento, ou de preto
e as bilheteiras imponentes, lá cuspiam
os seus bilhetes.
E a azáfama, descontinuada.
Media o tempo do Rossio.
Estação. Rossio. Relógio. Bilheteira.
Escadas. Rolantes. Gentes.
O dia, ainda mal dormia.
pecúlio ilustre de existências calejadas,
paredes frias entranhadas de estorias dificeis,
e azedumes de uma ou outra mulher,
escada rolante ou tapete que, corpos infindáveis carregava,
resistentes ou calosos, anafados ou escanzelados,
para cima e para baixo, eram as regras de outrora,
foram do seu tempo, tempo azedo.
por onde se passava,
o relógio lá falava e foi-se gastando o tempo.
O moço, cauteleiro ou jornaleiro
já não tem onde vender.
E os habitués, onde correr.
Aglomerações se viam, sem conta
ancoradouro étnico, cenários mistos
peles combinadas, cabelos multicores,
já não têm porque dançar.
A trote se pavoneavam pelas redondezas,
culturais ou coloridas, de cinzento, ou de preto
e as bilheteiras imponentes, lá cuspiam
os seus bilhetes.
E a azáfama, descontinuada.
Media o tempo do Rossio.
Estação. Rossio. Relógio. Bilheteira.
Escadas. Rolantes. Gentes.
O dia, ainda mal dormia.
Nunca me esqueci de ti
Nunca me esqueci de ti
Bato a porta devagar,
Olho só mais uma vez
Como é tão bonita esta avenida...
É o cais. Flor do cais:
Águas mansas e a nudez
Frágil como as asas de uma vida
É o riso, é a lágrima
A expressão incontrolada
Não podia ser de outra maneira
É a sorte, é a sina
Uma mão cheia de nada
E o mundo à cabeceira
Mas nunca
Me esqueci de ti
Tudo muda, tudo parte
Tudo tem o seu avesso.
Frágil a memória da paixão...
É a lua. Fim da tarde
É a brisa onde adormeço
Quente como a tua mão
Mas nunca
Me esqueci de ti
João Monge / Rui Veloso
Bato a porta devagar,
Olho só mais uma vez
Como é tão bonita esta avenida...
É o cais. Flor do cais:
Águas mansas e a nudez
Frágil como as asas de uma vida
É o riso, é a lágrima
A expressão incontrolada
Não podia ser de outra maneira
É a sorte, é a sina
Uma mão cheia de nada
E o mundo à cabeceira
Mas nunca
Me esqueci de ti
Tudo muda, tudo parte
Tudo tem o seu avesso.
Frágil a memória da paixão...
É a lua. Fim da tarde
É a brisa onde adormeço
Quente como a tua mão
Mas nunca
Me esqueci de ti
João Monge / Rui Veloso
Saiu para a rua
Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura
Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho
Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão
Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura
Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura
Letra de Rui Veloso
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura
Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho
Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão
Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura
Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura
Letra de Rui Veloso
segunda-feira, outubro 24, 2005
Almost granted
Nem sequer palavras azedas, ele proferiu, naquele dia. Já não a via há mais de um mês.
E no entanto, já muito pouco havia a dizer, quando estavam juntos.
As suas vidas trilhavam percursos diferentes.
A ambição e o poder ocupava a simplicidade que lhe fora inata. Ela não se importava com isso, desde que ele lhe desse atenção. Também a sua vida iniciava um ciclo diferente do dela. Ele insistia que tinha saudades. Mas quando estava por perto era como se não a visse. Era como se ela tivesse de fazer parte daquele convívio. Para não ferir susceptibilidades. Porque a conhecia há muito tempo. E porque passaram por tanta coisa, juntos. Como tudo mudou. Somente isso. E se ela precisava de companhia, essa companhia era muda. Os valores mudaram. As ausências permanecem. As conversas são diferentes, e no entanto, tão iguais. Os desfechos previsiveis. Os julgamentos e as rotinas não se alteram. As compatibilidades afastam-se cada vez mais. E surge um eco oco em redor, como se por pena, ela assistisse ao desempenho e desenvolvimento do que se passou durante estes anos. Ela mantem-se inerte, à procura de uma luz que a faça despertar, para agarrar o que perdeu.
Um gesto, um aceno. Uma conversa, ou uma troca de vivências. Qualquer acaso que a sustente. Recuperar a cumplicidade que os unia. O saudosismo de uma noite. O alvorecer da gargalhada. E se ele gostava. Alvoraçados se perdiam um no outro.
Elogios desprendidos, se tornaram.
E no entanto, eu estou aqui. E tu para onde te foste?
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