Apeteceu-me ir ao cinema. Porém, a hora da matiné não era muito propícia, dada a escolha de filmes que eu tinha pela frente. De todos, optei por uma comédia romântica, que me surpreendeu. Pensei que iria rir todo o filme. Pareceu-me ser um enredo leve e descontraído, e no entanto, achei-o bastante triste. O filme foca, essencialmente, relações fortuitas e curtas. Num ápice, se percebe que o protagonista fica sozinho, na medida em que ele personifica o verdadeiro don juan, o homem que deseja e conquista todas as mulheres e que as abandona, sem qualquer culpabilidade. Embora seja ambicioso, o que ele mais deseja é ter dinheiro suficiente para viver, gozar ao máximo os prazeres da vida e não ter de assumir responsabilidades.
Um irresistível londrino que acabou de se mudar para a sofisticada Manhattan. A personagem principal deste filme - uma espécie de ''Sex in the City'' em versão masculina - trabalha como motorista de limusines nas ruas da cidade e, sempre que pode, aproveita o conforto do banco de trás para seduzir as suas clientes mais solitárias.
O filme centra-se em cinco das suas conquistas amorosas: a namorada do seu melhor amigo, a mãe solteira que sonha com uma relação a sério, a mulher casada e infeliz, a louca e a fogosa executiva de meia-idade.
Apesar de as abandonar a todas, no final ele vai aprender algo com cada uma delas. Embora esteja rodeado de romance, quando percebe que é incapaz de amar, constata que, aos trinta e poucos anos, um pouco de amor e intimidade verdadeiros não lhe fariam mal...
Típico de alguns homens. Portanto, no campo das relações não há filme mais actual que caracterize este tema. Deveras esclarecedor e imediato para evidenciar o que se passa connosco. Antes de mais, enaltecemos a embalagem, depois o que julgamos ser o último recurso, a felicidade inesperada e repentina. É só isto que interessa. O que não é tão mau, se pensarmos em continuidade, mas o nosso egoísmo incomodativo sussurra-nos ao ouvido que há sempre mais.
Bom, ele fica sozinho. Vê-se forçado a alterar o seu modo de vida, e a tratar as mulheres doutra forma. Todas as relações tinham terminado. Numa delas queria voltar a vê-lo.
E o que é que ele tinha? O que é que ele construiu? Quem é que ele amou? Nada e ninguém. Tinha um emprego. Tinha uma casa modesta nos subúrbios de Nova Iorque. Perdeu os poucos amigos que tinha. “Quem semeia ventos , colhe tempestades”. Sim, é verdade. Será justo dizer: É inevitável lutarmos contra a nossa natureza e aprendermos a lidar com ela? Não sei, será?
Só sei que o filme vislumbrava ser uma comédia e tornou-se para mim, uma análise exaustiva e melancólica. Posso imaginar o que ele sentiu. Ficar sozinho e, no fundo, é o que nos assusta, a todos.
Curiosamente, não estava muita gente na sessão e ouviam-se gargalhadas histéricas e desapropriadas, face às questões importantes e subjacentes e, mais grave, que não foram interpretadas da mesma forma. Muitos dos gages alusivos no filme funcionam como uma homenagem à masculinidade incutida nos homens, ao longo dos tempos. Para mim, aquelas pessoas que acharam o filme hilariante, não souberam ler nas entrelinhas, o que revela pobreza de espirito.
Todos sabemos que existem mulheres como o Alfie, mas sabe bem dizer que é bem feito o que lhe aconteceu. Pois, não carece de ter pena de homens que actuam assim com as mulheres. Só merecem o fim que têm.
...
do mesmo modo de que as mulheres têm medo de receber, os homens têm medo de dar. Dar de si aos outros significa arriscar-se a uma falha e desaprovação. " John Gray, autor de Homens são de Marte, mulheres são de Vênus.",